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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Caricatura de Enver Hoxha Feita por Luiz Sérgio N. Henriques


A Caricatura de Enver Hoxha Feita por Luiz Sérgio N. Henriques

Por Ícaro Leal Alves

 
 

Foi-me solicitado que apresentasse meus comentários acerca da resenha do livro O Imperialismo e a Revolução do líder revolucionário albanês, Enver Hoxha, feita por Luiz Sérgio N. Henriques e publicada pela primeira vez no semanário do Partido Comunista Brasileiro, Voz da Unidade, 16 a 22 de janeiro de 1981, ano II, n. 41, p. 17 e hoje disponibilizada pelo blog Materialismo.net.

            Preparei alguns comentários sobre pontos centrais de discussão que consegui abstrair do texto – é preciso dizer – pouco substancial do Dr. Henriques. É lamentável que um homem da estatura intelectual do organizador do site Gramsci e o Brasil tenha conseguido pouco mais do que colecionar adjetivações sobre a “caricatura” de homem que era Hoxha.

            Meus comentários seguem abaixo:

“Stalinismo Maciço e Obstuso” e a Colonização do Pensamento Comunista

Talvez na tentativa de dar cientificidade ao seu trabalha de propaganda anticomunista o Dr. Henriques começa seu texto por caracterizar a conjuntura sobre a qual escreve:

Entre as peculiaridades do atual momento político, está a de impor, por um lado, a busca da unidade entre todos os que se opõem à autocracia militar vigente, busca que se pode chamar de vital para a redemocratização (HENRIQUES, 1981).

Imediatamente alerta ao leitor que essa unidade requerida para luta contra o autocracia militar que então engolia a sociedade brasileira é corroída e ameaçada:

Mas, por outro lado, aquele momento político já avançou ao ponto de [sic] fazer surgirem irreparáveis divergências entre as oposições, em geral, e as esquerdas, em particular (HENRIQUES, 1981).

No paragrafo seguinte somos informados que essa ameaça à unidade “democrática” não vem da paranoia e do preconceito anticomunista característica dos anos de chumbo pelos quais a sociedade brasileira, obviamente, não passou ilesa, não passou sem adquirir qualquer coisa que lhe entranhe na alma, mas sim um livro de 400 páginas de um líder político-revolucionário albanês, que, se contarmos não com o restrito grupo de intelectuais leitores da literatura política saída do Leste Europeu e países afins, mas sim, a totalidade dos brasileiros, é justo dizer; quase ninguém leu.

            Ao falar do livro, o Dr. Henriques faz menção ao prefácio de João Amazonas, então dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Ora, logo no primeiro paragrafo do mencionado prefácio, João Amazonas afirma; “Fazia grande falta ao movimento comunista mundial uma obra da Envergadura de O IMPERIALISMO E A REVOLUÇÃO” (AMAZONAS, 1980: I)[1].Ficamos assim informados que a obra de Hoxha tem um público alvo bem restrito e um objetivo muito claro, o de ser uma síntese do atual estágio de desenvolvimento do marxismo-leninismo (atual para 1978), e, seu publico alvo é, não mais, que o restrito grupo de marxista-leninistas de leitura albanesa que o autor da resenha tem direcionado sua crítica.

            Estranho! O doutor Luiz Sérgio Henriques entende como ameaça a frente democrática do Brasil a edição de um livro que não tem outro objetivo que informar aqueles que reivindicam uma determinada orientação política sobre as leituras feitas pelo seu principal representante da realidade atual do movimento popular e de sua síntese teórica?

O Dr. Henriques fala de “Stalinismo maciço e obtuso”, de “codificação staliniana do pensamento de Marx e de Lenin” e de “simplificação abusiva da riqueza e a diversidade da obra de Marx, Engels e Lenin”, mas é o próprio Lênin, quem afirma, em Que Fazer?,que o motivo da ruptura da aliança dos comunistas russos, nos fins do século XIX, com os chamados marxistas legais, fora a ausência de independência ideológica imposta aos primeiros pelos últimos e que é essa independência condição Sine Qua Non para qualquer aliança[2]. Como se explica então essa total supressão de independência ideológica exigida aos comunistas do Brasil pelo gramsciano L. S. N. Henriques? Poder-se-ia pensar em maior supressão da liberdade de opinião? É possível imaginar uma concepção de democracia que seja mais totalitária que essa, para a qual, uma frente democrática tem por pressuposto que um dos seus componentes abandone totalmente sua liberdade de produzir opinião independente do outro?

            É a esse tipo de exigência grotesca, que o filosofo italiano, Domenico Losurdo, se refere, ao falar de colonização do pensamento comunista. A democracia (burguesa) é completamente democrática conquanto os comunistas estejam interditados de revelar publicamente suas reais opiniões. Só tendo em vista isso é possível entender plenamente a que se refere o autor quando falar de “impor” a unidade a frente democrática no Brasil.

O “todo compacto, em si acabado, capaz de responder a todos os problemas” dos stalinistas e a Grande Ausência dos marxianos

Ao lermos a critica do professor Lúcio Jr[3] a essa resenha que agora submetemos a analise ficamos sabendo que o Dr. L. S. N. Henriques posiciona-se atualmente no campo dos marxianos. Os marxistas com forte presença acadêmica do período atual se caracterizam pela preferencia ao termo marxiano, no qual vêem maior riqueza cientifica que no termo marxista-leninista.

            Já na resenha de 1981 podemos notar como Henriques rebela-se contra essa designação que considera absurda;

Desde o início, fica claro que Hodja, ao usar de modo repetitivo a fórmula marxismo-leninismo, de cuja “pureza” (sic) se arvora em defensor, o que faz na verdade é apresentar uma versão de quinta categoria da codificação staliniana do pensamento de Marx e de Lenin. Tenho a impressão de que poucas vezes se fez tão claro, como neste texto de Hodja, que o uso daquela fórmula termina por “apresentar a teoria revolucionária do movimento comunista como um todo compacto, em si acabado, capaz de responder a todos os problemas”, ao mesmo tempo [em] que simplifica abusivamente a riqueza e a diversidade da obra de Marx, Engels e Lenin, além da própria história do movimento operário (HENRIQUES, 1981).

Vemos aqui plenamente sintetizada, já há 30 anos, essa tese, que muitos insistem em ver como novidade, segundo a qual o marxismo-leninismo é uma codificação staliniana do pensamento de Marx e de Lênin, que consiste fundamentalmente em apresentar a teoria revolucionária do movimento comunista como um todo compacto, em si acabado, capaz de responder a todos os problemas. Ou seja, aqui estamos diante da acusação de que o marxismo-leninismo seria a-histórico.

            É verdade que foi Stálin o maior divulgador do termo marxismo-leninismo e talvez tenha sido o primeiro a reivindica-lo. Mas, como Stálin compreendia e definia essa teoria?

            Em seu livro Fundamentos do Leninismo, Josef Stálin dedica as primeiras páginas a discussão do “que é, pois, o leninismo?”. São duas paginetas que trazem, no entanto, aquele historiador que gosta de pensar e que não está infectado pelos preconceitos correntes elementos de reflexão de tomos inteiros. Após criticar as definições correntes do leninismo Stálin afirma; “o leninismo é o marxismo da época do imperialismo e da revolução proletária”[4].

            O leitor afiado e que ainda não ficou cego pelo anticomunismo notará que Stálin se refere a época, portanto, a temporalidade. Algo sem par para um historiador. A definição de Stálin do leninismo vai mais a além. Ele diz;

A verdade inteira sobre o leninismo consiste em que não só ressuscitou o marxismo, mas deu um passo à frente, prosseguido o desenvolvimento do marxismo dentro das novas condições do capitalismo e da luta de classes do proletariado (STALIN, sem data: 8).

Pois bem, o marxismo-leninismo, ou, a decodificação staliniana do pensamento de Marx e Lênin – que deforma esse pensamento ao torna-lo um todo compacto, em si acabado, capaz de responder a todos os problemas – exige não só uma temporalidade especifica, mas também um campo concreto de ação, as condições do capitalismo (aqui Stálin refere-se ao capitalismo monopolista), mas também a experiência coletiva, a luta de classes. Em resumo, a história.

            A acusação de um caráter a-histórico do marxismo-leninismo cai por terrar.

            Por outro lado, os seus detratores, que se pretendem atentos as particularidades e inovações, parecem não passar imunes da acusação de a-históricos, quando desenvolvem por exemplo a teoria do Retorno a Marx. Vejamos com um já citado filosofo italiano desenvolve brilhantemente esse problema:

Eis que emerge a palavra de ordem de “volta a Marx”. Seria fácil demonstrar que Marx é o filosofo mais decisivamente crítico da filosofia dos retornos. Em sua época, desprezou aqueles que, em polêmica com Hegel, queriam voltar a Kant ou, definitivamente, a Aristóteles! Volta a entrar, no abc do materialismo histórico, a tese segundo a qual a teoria se desenvolve a partir da história, da materialidade dos processos históricos. O grande pensador revolucionário não hesitou em reconhecer o débito teórico contraído por ele em relação a breve experiência da Comuna de Paris: atualmente, ao contrário, décadas e décadas de um período histórico particularmente intenso, da Revolução de Outubro à chinesa, cubana (nós incluímos, albanesa – I.L.A.) etc., devem ser declaradas destituídas de significado e de relevância no que diz respeito à “autêntica” mensagem da salvação já consignada, de uma vez por todas, em textos sagrados, que teriam apenas de ser redescobertos e reanalisados religiosamente (LOSURDO, 2009: 20)![5]

É a esse tipo de dogmatismo canônico que recorre o nosso “crítico”, que curiosamente atribui ao partidário da leitura “histórica” do marxismo proposta por Stálin a acusação de reverencia religiosa. Nega as experiências históricas do socialismo no século XX e apega-se a letra de Marx. É a isso que se referia o professor Lúcio Jr, em sua critica ao mesmo Dr. Henriques, quando afirmava que esse nega a linha de continuidade entre Marx, Lênin e Stálin.

            Sobre essa categoria de dogmatismo tenho uma experiência particular que gostaria de compartilhar. Faz poucos dias recebi uma resposta ao meu artigo “Alguns Problemas do Paradigma Trotskista”. Na carta um trotskista argumentava que as citações de Lênin referentes ao problema do socialismo em um só país eram nulas visto que ele não conheceu a obra a Ideologia Alemã de Marx e Engels, só publicada em 1932, nas quais os dois afirmam ser impossível a construção de uma sociedade comunista num só país. Tendo Trotsky tido a possibilidade de estudar esses escritos, cujas páginas, muitas, se perderam para sempre, estaria melhor colocado para falar desse problema do que Lênin que morrera em 1924. Assim o trotskista dá a discussão do problema do socialismo em um só país por encerrado. Não entraremos na questão da interpretação que consideramos erronia das palavras de Marx e Engels, somente salientaremos que perante a experiência histórica gigantesca de um país agrário, capitalisticamente atrasado, destruído pela guerra e cercado de Estados hostis, que consegue em poucos anos edificar relações econômicas socialistas, desenvolver as forças produtivas ao ponto de passar da época do arado de madeira a da energia atômica e ainda vencer uma guerra mundial praticamente sozinho, o trotskista dogmático prefere se aferrar a letra messiânica de um texto de Marx carcomido pela critica corrosiva dos ratos e que o próprio autor decidiu não publicar.

            Podemos concluir desse ponto que a história é a Grande Ausência desses críticos do marxismo-leninismo que recentemente passaram a se esconder sobre a máscara do pensamento marxiano, mas que também se intitulam de trotskistas, gramscianos etc.

Acusação de Dogmatismo e Falsa Dicotomia

O Dr. Henriques também acusa Enver Hoxha de criar uma falsa dicotomia; “Todo o seu discurso, efetivamente, está marcado pela oposição ortodoxia/revisionismo”. Diante da inconsistência tremenda que marca o discurso “revisionista” do nosso crítico bastaria afirmar que isso é mentira. Hoxha não advoga uma posição de ortodoxia e cópia acrítica da experiência soviética ou outra como quer fazer crer o autor. O próprio Hoxha afirma em alguns momentos que os soviéticos cometeram erros já no período de Stálin[6] e a experiência albanesa é por si só criativa como faz notar Fishuk na introdução que preparou para o texto de Henriques, o socialismo nasce na Albânia de uma guerra antifascista de libertação nacional num país feudal sem proletariado industrial desenvolvido.

            O problema da difusão tremenda de um revisionismo no movimento comunista internacional é coisa que preocupou toda uma serie de líderes comunistas e não somente Hoxha. A critica ao revisionismo é bem diverso do apego a letra de Marx, característico ai sim de uma serie de críticos do marxismo-leninismo, como já demonstramos. É sim a preocupação com a castração acadêmica feita contra o marxismo pelo ala direita do movimento dos trabalhadores, como faz notar o próprio Lênin, já em 1908[7], e reafirma, 50 anos depois, Mao e Enver.

Discurso de Autoridade e Construção Dialética do Conhecimento

Aqui chegamos a mais um ponto curioso do texto. Segundo ele, Hoxha realiza um processo de castração do carácter criativo do marxismo (!??), e; “Ao cabo desta operação, ficam restaurados, em todo o seu duvidoso esplendor, os argumentos de autoridade no interior do marxismo” (HENRIQUES, 1981). Depois de encontrarmos essa argumentação em um trabalho de 1981 é espantoso recordar como algumas pessoas ainda o utilizam com ares de extrema novidade. Pelo menos, essas pessoas desconhecem a definição de Lênin do Marxismo como passo posterior a tudo aquilo que de melhor a ciência burguesa foi capaz de produzir[8]. Mas o Dr. Henriques, que conhece tal definição e sabe muito bem o processo complicado que move a elaboração do conhecimento estaria livre para criticar de forma tão grosseira o exigência de Hoxha de um referencial sólido nos clássico do marxismo-leninismo? Não faria melhor se admitisse a necessidade de tal referencial e exigisse dos seu colegas gramscianos, trotskistas e outros a devida utilização desse referencial atendo-se as experiências históricas, única forma adequada de utiliza-lo.?

            É essa uma estranha característica do campo antimarxista-leninista, eles falam de “discurso de autoridade” e se saem de discussões históricas espinhosas com citações de textos que os próprios autores decidiram não publicar. Entenda isso quem poder.

A Paranoia Stalinista

Por último reaparece a tese canônica em termos de crítica ao stalinismo, a acusação de paranoia por parte de seus lideres. Segundo o autor,Hoxha excomunga do mundo comunista como inimigos do povo, os trotskistas, bukharinistas e outros istas, pela mais pura paranoia. Mas uma vez o exemplo de como a inovadora corrente marxiana, cuja ultima palavra é retornar a Marx, não consegue observar uma coisa chamada história.

            Mas como os marxianos só parecem estar dispostos a ir longe no tempo quando o assunto são manuscritos embolorados de Marx deixemo-los o exercício de meditar sobre a atual situação na Síria e de que lado está o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (trotskista)[9]. Assim nossos marxianos podem refletir mais detidamente sobre a paranoia stalinista.

Construção da Democracia e enriquecimento categorial; alguns serviços ao capital <<Considerações Finais>>

Ao longo do texto fizemos algumas considerações sobre determinados pontos que notamos centrais da elaboração da critica a Hoxha, que sob a máscara da critica ao dogmatismo não é mais que critica ao marxismo-leninismo. E mais, o caráter extremamente limitado da resenha apresentada pelo Dr. Luiz Sérgio N. Henriques, limitado inclusive no numero de linhas, nos forçou a trabalhar quase que exclusivamente com léxicos. Henriques não fez muito mais que apresentar adjetivações referentes ao líder albanês que entre outras coisas é acusado de ser uma figura “bizarra”. O desprezo dos marxianos pela história e pelo socialismo real, aquilo que realmente se constrói, chega a esse extremo.

As considerações apresentadas agora ficaram para o final não só porque se referem aos ultimos parágrafos do texto analisado mais também porque são o desenlace da trama.

Afirmamos logo de inicio que o que o doutor Henriques propõe é uma concepção totalitária de democracia. Pois vejamos:

Gostaria de observar, por fim, que a construção de uma sociedade democrática, possível ‒ apenas possível ‒ no Brasil de agora, estimula no campo da teoria um processo de enriquecimento categorial: é como se a sociedade civil, articulando-se, passasse a cobrar mais das diferentes correntes políticas (não se trata, é óbvio, de nada parecido com “patrulhamento ideológico” ou coisa assim). E quem se apresenta patrocinando um livro como o de EnverHodja só pode aspirar às dimensões de seita inconsequente e totalitária, sem muito a oferecer para aquela articulação mais sólida da sociedade civil e para o próprio processo de enriquecimento dos conceitos e das categorias (HENRIQUES, 1981).

Pois bem, o doutor Henriques apresenta o processo de democratização do país como sendo algo que estimulasse o enriquecimento categorial no campo da teoria, mas acredita ser condenável aquele grupo que se vê patrocinando um livro! Pouco importa se esse grupo tenha tido muitos saídos de suas fileiras exterminados fisicamente, seja na guerrilha do Araguaia seja na chacina da Lapa, por se baterem por essa “democracia” de que fala Henriques. Tão pouco importante é, tão significativo como um detalhe infantil, para o doutor Henriques, que o autor desse livro seja o homem que liderou um pequeno povo, a altura contando com pouco mais de um milhão e meio de pessoas, para prestar seus concursos a eliminação da maior maquina de guerra contra democracia da história do século XX, a Wehrmacht. Pouco importa se esse homem tenha liderado um exército (o Exército de Libertação Nacional Albanês, ELNA) para com seu suor e sangue ajudar a destruir e extirpa da face da terra o nazi-fascismo. Tudo isso é um mero detalhe, circunstancial talvez, como o é, ver um paladino da democracia, como o doutor Luiz Sérgio Henriques, reivindicando o retorno da censura anticomunista sob as novas vestes do enriquecimento categorial. Afinal, o que é apelar para que se “condene” um grupo político que edita um livro escrito por um líder de um país de terceiro mundo e do campo socialista, que ainda por cima liderou um movimento guerrilheiro contra o nazi-fascismo, porque supostamente esse grupo não tem com o que contribuir para a democracia, se não o velho ódio anticomunista reeditado e publicado nas folhas de um semanário que se afirma comunista?

            O “totalitarismo” burguês tornou-se mais sofisticado. Tagarela sobre a “sociedade civil”, esse termo vago e meloso, enquanto busca negar, obscurecer, submeter a vexação publica aqueles que com suas vidas concorreram para derrubar os muros do fascismo e da opressão e construir uma verdadeira democracia para os trabalhadores. O pensamento do Camarada Enver Hoxha, não obstante seja apreciado com diferentes níveis de validade pelos que de fato defendem uma sociedade mais democrática, continua sendo uma síntese magistral de toda uma época de lutas e de conquistas das classes exploradas e oprimidas. Um pedaço importante do edifício inacabado e interminável, mas já gigantesco, que é hoje, o marxismo-leninismo.



[1] AMAZONAS, João. Prefácio in HOXHA, Enver. O Imperialismo e a Revolução; tradução: Instituto de Estudos Marxista-Leninistas da Albânia – 2ª Edição, 1979: – 2ª Edição – Editora Anita Garibaldi Ltda. São Paulo, 1980. Pp. I
[2] LENIN, Vladimir. Que Fazer? In V.I. LENIN OBRAS ESCOLHIDAS EM TRÊS TOMOS; V. 1. – São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1979. Pp. 92
[3] JR, Lúcio, Sobre Resenha de um Gramsciano Contra Hoxha disponível em <<http://revistacidadesol.blogspot.com.br/2012/11/sobre-resenha-de-um-gramsciano-contra.html>>, consultado em 30 de novembro de 2012.
[4] STÁLIN, Josef. Fundamentos do Leninismo. – Recife: Edições Manoel Lisboa, sem data. Pp. 8
[5] LOSURDO, Domenico. Fuga da História? A revolução russa e a revolução chinesa vistas de hoje. – 1ª reimpressão – Rio de Janeiro: Revan, fevereiro de 2009. Pp. 20
[6] HOXHA, Enver. A Luta Contra o Revisionismo Soviético; Discurso na Conferência dos 81 partidos comunistas e operários, realizada em Moscou, em 1960. – São Paulo: Edição Conjunta: Anita Garibaldi e Associação de Amizade Brasil-Albânia, 1985. ( Nas partes referentes a critica dos soviéticos a Stálin, Hoxha afirma que Stálin cometeu erros mais que no geral manteve-se no campo do marxismo-leninismo).
[7] LÊNIN, Vladimir. Marxismo e Revisionismo in V.I. LENIN OBRAS ESCOLHIDAS EM TRÊS TOMOS; V. 1. – São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1979. Pp. 41
[8] LÊNIN, Vladimir. As Três Fontes e as Três Partes Constitutivas do Marxismo in V.I. LENIN OBRAS ESCOLHIDAS EM TRÊS TOMOS; V. 1. – São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1979. Pp. 35-38
[9] ALVES, Cristiano. PSTU manifesta solidariedade a mercenários da CIA na Síria disponível em <http://www.apaginavermelha.blogspot.com.br/2012/11/politica-pstu-manifesta-solidariedade.html>  consultado em 30 de novembro de 2012.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

104 ANOS DO NASCIMENTO DO CAMARADA ENVER! UM FAROL PARA A CAUSA DO SOCIALISMO E DOS POVOS OPRIMIDOS DO MUNDO!



Hoje, 16 de Outubro de 2012, 104 anos do nascimento do camarada Enver Hoxha. Enver Hoxha foi o fundador do Partido Comunista da Albânia (depois Partido do Trabalho da Albânia) e seu secretário-geral durante quatro décadas (de 1941-1985). Liderou a Luta de Libertação Nacional do povo albanês contra o fascismo e o nazismo italiano e alemão, organizando a Frente de Libertação Nacional (em Setembro de 1942) e comandado o Exército de Libertação Nacional Albanês (criado em Julho de 1943). Após a expulsão das tropas de ocupação nazifascistas, em Novembro de 1944, dirigiu o primeiro governo democrático popular da Albânia liberada, proclamando, em janeiro de 1946, a República Popular da Albânia. Serviu como primeiro-ministro da RP da Albânia entre os anos de 1944-1953. Durante seu governo os colaboracionistas foram submetidos a tribunais populares, realizou-se a reforma agrária, a indústria, os bancos, o comércio interno e externo foram nacionalizados, institui-se a direção planificada da economia através do sistema dos planos quinquenais e iniciou-se a industrialização e coletivização da agricultura. O Estado Albanês foi modernizado desligando-se da religião. A mulher albanesa, durante séculos oprimida pelas tradições medievais conhece um progressivo processo de emancipação. Combateu-se doenças epidêmicas largamente disseminadas pelo país e também o analfabetismo. O governo realizou uma atividade intensa pela elevação geral do nível cultural dos trabalhadores. Após os XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética Hoxha lutou contra o revisionismo kruschovista. Com uma larga experiência de luta contra o revisionismo titista, que com suas intensões expansionistas ameaçava recolonizar a Albânia socialista, Enver transformou-se no mais importante defensor do conteúdo revolucionário do marxismo-leninismo, do legado histórico do Camarada Stálin contra as calúnias revisionistas e um verdadeiro farol para a vitória do socialismo e da causa da libertação nacional dos povos coloniais e oprimidos. Acreditava que só a revolução conduzida pelo partido marxista-leninista poderia livra os povos da opressão imperialista e capitalista.
 
Obras do Camarada Enver Hoxha disponiveis em português na internet:
O Imperialismo e a Revolução:
 
Uma Juventude Revolucionária:
 
Sobre o Caráter Ideológico dos Mexericos:
 
O Significado Teórico e Prático da Organização:
 
A Luta Ideológica e a Educação do Homem Novo:
 
O Valor das "Liberdades Democráticas" num Estado Burguês e as Formas de Aproveitá-las:

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Como o Partido do Trabalho da Albânia se Afastou de suas Posições Marxista-Leninistas - Nexhmije Hoxha


Como o Partido do Trabalho da Albânia se afastou de suas posições marxistas-leninistas

 

Por Nexhmije Hoxha*

 

“Perdemos a independência política e econômica, mas o povo albanês sempre lutou no curso da história”

 
Enver e Nexhmije Hoxha
 

 

Nexhmije Hoxha, 77 anos, viúva de Enver Hoxha (líder da revolução e da construção do socialismo na Albânia) foi uma destacada dirigente do Partido do Trabalho (Comunista). Durante o período do socialismo desempenhou tarefas ligadas à educação revolucionária das massas. Integrante do Comitê Central do PTA e deputada na Assembléia da República, foi diretora do Instituto dos Estudos Marxistas-Leninistas e presidente da Frente Democrática, organização política e social de unidade popular. Durante governo revanchista e anticomunista de Sali Berisha – instaura do no quadro da contra-revolução que envolveu a Albânia e todo o Leste europeu – Nexhmije ficou encarcerada por 5 anos. Atualmente dedica-se a escrever suas memórias.

Neste texto – no original, um discurso realizado na cidade italiana de Teramo (1997) – explica as causas da derrota do socialismo na Albânia.

"Sabe-se que um dos princípios fundamentais do comunismo é o papel de guia do Partido Comunista na organização, na direção e na realização bem-sucedida das revoluções proletárias e da edificação do socialismo.

A experiência e a realidade da Albânia testemunham sobre a coerência dessa tese leninista não somente do ponto de vista teórico mas também prático. Desde a fundação do Partido do Trabalho da Albânia em 1941, o povo albanês lutou contra os ocupantes nazifascistas sob a direção desse partido e do camarada Enver Hoxha, realizou passo a passo a revolução popular, estabeleceu o poder da democracia popular segundo os princípios da ditadura do proletariado e edificou o socialismo. Não me deterei aqui no período de 45 anos da construção do socialismo na Albânia, porque os resultados obtidos sob a direção do Partido do Trabalho e do camarada Enver Hoxha são mais ou menos conhecidos e o tempo de que disponho não me permite. Efetivamente, tenho em mente expor o aspecto negativo da dolorosa experiência albanesa, daquilo que ocorre quando o partido da classe operária abandona a luta em defesa dos princípios leninistas, deixa-se atrair pelos lemas e pelas alternativas dos revisionistas modernos renunciando assim não somente a seu papel hegemônico, mas indo até o ponto de negar-se a si mesmo.

Como tudo isso ocorreu? Por que o Partido do Trabalho da Albânia se afastou de suas posições marxistas-leninistas?

Em 1985, o povo albanês e o Partido do Trabalho perderam seu guia, Enver Hoxha. Foi exatamente em 1985 que na União Soviética Mikhail Gorbachev assumiu a frente do estado soviético e com suas idéias sobre a Perestroika e a Glasnost foi, com efeito, mais longe que o revisionista antileninista e antistalinista Nikita S. Kruschev. Enver Hoxha não viveu para lutar contra Gorbachev, mas até o fim dos seus dias lutou com a exemplar determinação de um grande revolucionário marxista-leninista, denunciando abertamente os perigos que o revisionismo moderno causava ao movimento operário, e sobretudo os provenientes do revisionismo que se alimentava e se inspirava pela direção do primeiro país da Revolução Proletária, da edificação socialista e comunista. No que concerne ao seu país, Enver Hoxha não limitou essa luta unicamente ao plano ideológico mas denunciou sempre o perigo que ameaçava a independência da Albânia socialista nos planos político, econômico e militar, decorrente das intenções da nova superpotência imperialista soviética.

À chegada de Gorbachev à cabeça da União Soviética, com suas reformas tão aplaudidas e exageradas pelos círculos imperialistas, pelas chancelarias ocidentais e pela imprensa burguesa mundial, apareceram as primeiras fissuras no seio do Estado criado por Lênin e Stalin, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, no país que tinha salvado o mundo do nazismo alemão, que era a esperança dos povos do mundo e do movimento operário internacional, que sempre tinha apoiado as suas lutas pela liberdade, a independência, por seus direitos nacionais e sociais. Gorbachev e seus colaboradores não apenas atacaram os fundamentos do Estado criado pela Revolução de Outubro, mas servindo-se de suas teorias anti-leninistas, destruiu os laços fraternais e as situações internas nos países de democracia popular. Ele disse ao imperialismo norte-americano e ao grande capital ocidental: "façam o que quiserem".

Gorbachev afirmou sua traição de antileninista com o discurso que pronunciou há dez anos, por ocasião do 70° aniversário da Revolução de Outubro. Para nós está claro tudo o que

aconteceu e continua a acontecer na ex-União Soviética após essa queda vertiginosa e o afastamento da linha leninista, queda que o próprio Gorbachev não pôde suportar, cedendo lugar aos Ieltsins para que estes consumassem a traição até o fim, reduzindo a União Soviética a um país sem o peso político e militar que representava, abandonando-a a um completo caos econômico, moral e social.

O X Congresso, de junho de 1991, foi preparado por uma comissão especial que fez de tudo para desacreditar os membros mais antigos do Birô Político e os comunistas mais determinados

Mas é hora de falar sobre meu país onde uma inaudita catástrofe aconteceu. Que eu saiba, ninguém até o presente fez uma análise profunda e geral do que ocorreu e continua a ocorrer na Albânia. Não é fácil fazer essa análise porque os fatores internos e externos são numerosos, sendo as ligações entre uns e outros evidentes, mas, também, é indiscutível que houve nos bastidores cenários e planos que se podem imaginar e que até o momento permanecem desconhecidos.

Eu própria ainda não me lancei a esse trabalho, porque depois de 1991 estive presa durante mais de cinco anos e apenas tinha sido libertada quando ocorreram os indesejáveis acontecimentos de 1997, período durante o qual estive praticamente isolada, sendo impossível deslocar-me e encontrar quem eu queria. Mas, pelo que pude compreender e acompanhar dos acontecimentos ocorridos na Albânia, tentarei apresentar de maneira incompleta, apenas alguns momentos cruciais que influenciaram a crise albanesa.

Não me deterei na descrição do fundo histórico e das circunstâncias que influenciaram a crise albanesa, nem da situação catastrófica resultante.

Em suas análises o camarada Enver Hoxha sublinhava que o estabelecimento dos revisionistas no poder levaria à degenerescência do socialismo e à restauração do capitalismo, que os partidos se encontravam na lama da social-democracia, que o revisionismo moderno se transformaria num ninho de gatos. O curso dos acontecimentos que estamos vivendo dá-lhe completa razão no que concerne a essas previsões.

Desgraçadamente, seu Partido não se ateve estritamente às lições leninistas sobre o indiscutível papel dirigente do Partido como vanguarda da classe operária. Não valorizou a importância de suas advertências sobre o perigo do revisionismo moderno ressuscitado que ameaçava o socialismo nos países onde ele estava sendo construído e todos os partidos comunistas e operários do mundo.

O guia de nosso Partido se separou de nós no momento em que as forças políticas da grande burguesia capitalista dos países mais industrializados encontravam-se no auge da atividade para assentar um golpe eliminador nas forças comunistas, sobretudo nos países onde estas se encontravam no poder.

É dessa maneira que a pressão euroatlântica se faz sentir também sobre nós. Altas personalidades oficiais vinham à Albânia e insistiam em que "a Albânia mudasse de via". A resposta de nossa direção era: "A Albânia deve ser aceita tal como ela é" (tratava-se da Comunidade Européia, da Convenção de Helsinque, da OSCE etc). Mas, o “quartel general” anticomunista, sob a direção dos Estados Unidos, que organizava a última batalha pela derrubada do sistema socialista-comunista na União Soviética e nos países do Leste europeu, não podia suportar a obstinação dos albaneses. Organizou, então, a quinta coluna. As ameaças políticas e econômicas,vinham assim, tanto do Leste, dos “ex-amigos”, como do Oeste e se sucediam umas às outras.

Logo que assumiu o poder, Sali Berisha empreendeu uma campanha feroz contra os comunistas.

Era a época em que caía o muro de Berlim. Na Romênia ocorriam os processos e fuzilamentos horripilantes. A Rede Italiana de Televisão (RAI) continuava a enganar os jovens albaneses com a publicidade de uma vida paradisíaca.

Os comunistas honestos se esforçaram por manter durante o ano de 1990 o mais firmemente possível as principais posições encarnadas na Constituição da República Popular da Albânia do ano de 1976, que Enver Hoxha nos deixara como herança.

A verdade é que durante esse período a situação econômica do país não era satisfatória devido a razões objetivas e subjetivas, que não mencionarei aqui. Os elementos que organizaram manifestações turbulentas em nome da democratização do país, valeram-se do descontentamento de muitos coletivos da classe operária, aos quais já não se assegurava a matéria-prima para a produção, e dos jovens que já não encontravam trabalho como antes.

Encontrávamos-nos sob uma extraordinária pressão, tanto interna como externa. Insistia-se particularmente na revisão da Constituição, exigia-se a supressão do papel dirigente do Partido do Trabalho e a permissão do pluralismo político; a supressão da teoria marxista-leninista como ideologia guia de nosso Partido e de nosso estado; a introdução no país das sociedades de economia mista e dos créditos externos; o estabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos; a abertura das instituições religiosas; e a libertação dos prisioneiros políticos.

Havia entre todas essas exigências algumas que podíamos aceitar, mas eram de importância secundária. Exigia-se que renunciássemos à via marxista-leninista, ao socialismo, que retrocedêssemos ao passado, que restaurássemos o capitalismo, com todos os seus fundamentos e estruturas. Em meio a essa encruzilhada, a direção do Partido se encontrou na discórdia. A maioria era fiel à linha de Enver Hoxha. O mesmo aconteceu nas organizações do Partido. Mas o primeiro-secretário do Comitê Central e alguns outros dirigentes não compartilhavam o mesmo ponto de vista. Ele tomou duas decisões fatais para o Partido: primeiro, num discurso pessoal, sem pedir a aprovação do Birô Político, sem submeter aos votos do Pleno do Comitê Central, ele deu a orientação de abrir as reuniões das organizações do Partido a quaisquer pessoas que delas desejassem participar, com o direito de intervir nas discussões, sem a obrigação de serem membros. Habitualmente, nas reuniões das organizações de base das empresas, das escolas, das cooperativas etc, e mesmo nas reuniões plenárias do Comitê Central, em que se discutiam importantes problemas econômicos e científicos, sempre convidávamos especialistas renomados não membros do partido, mas não quem quer que desejasse, como se as organizações do Partido fossem clubes com entrada franca. Os comunistas reagiram mal a essa decisão. Com efeito, a vida do Partido foi destruída e durante os acontecimentos posteriores ele chegou a ser liquidado para se fazer substituir por um novo partido, o qual, no X Congresso, em junho de 1991, assumiu a denominação de Partido Socialista. A maioria dos comunistas, assim como a maior parte dos delegados, acreditavam que esse partido seria o continuador do Partido do Trabalho e chegaram mesmo a propor diferentes nomes, como Partido Renovado, etc. Foi nesse mesmo Congresso que se desferiu o segundo golpe, eliminador, no Partido do Trabalho. Refiro-me à maneira como o Congresso foi preparado, como se desenvolveu, seus bastidores e sobretudo a eleição do novo Comitê Central e às competências que este se atribuiu.

O Congresso e seu informe não foram preparados pelo Comitê Central, que era considerado conservador, mas por uma comissão especial, da qual participavam os membros liberais chamemos assim – do Comitê Central e outras pessoas indicadas pelo próprio primeiro-secretário. Não tendo sido aprovado pelo Comitê Central, sobretudo por suas críticas a Enver Hoxha, a Comissão exigiu a dissolução do CC apenas quatro dias antes do início dos trabalhos do Congresso. Não ficamos de acordo porque isto contrariava o Estatuto do Partido. A comissão organizou o trabalho de maneira que no congresso os mais antigos membros do Birô Político, assim como os comunistas mais determinados, fossem desacreditados por meio de acusações baixas sem caráter político e que serviram de fundamento às acusações que Sali Berisha lhes imputou mais tarde quando seu governo os aprisionou. O partido que foi criado nesse Congresso realizou um outro no qual se fundou um Partido Socialista, de tipo Ocidental, que enviou o primeiro documento a Betino Craxi, da Internacional Socialista européia. É compreensível que nessas condições o eleitorado que continuava votando no Partido do Trabalho ficasse desorientado e uma boa parte dele desse nas eleições de 22 de março de 1992 seu voto ao Partido Democrático, dizendo: "vejamos o que esse partido vai fazer"! E o povo viu o que esse partido fez e pagou ao preço de vidas humanas e angústias intermináveis a escolha que houvera feito nessas eleições. Durante todos esses anos ele conheceu também o Partido Socialista, o qual, estando em posições social-democratas, faz uma transição rumo à centro-direita, como ele próprio declara, em coalizão com os demais partidos no governo.

Em sua maioria, o povo, tomando consciência de sua responsabilidade, se insurgiu em revoltas, para reconquistar os direitos perdidos.

O que Sali Berisha deu à Albânia nos cinco anos em que ocupou o poder?

Em dezembro de 1990 um grupo de estudantes universitários conhecidos por seu liberalismo, se lançaram na empreitada de organizar protestos e manifestações. No começo, sob o pretexto de reivindicações econômicas. Mais tarde, apresentaram exigências políticas relacionadas à democratização da vida do país, a liberdade de opinião e de organização. Junto aos estudantes, encontrava-se – enviado pelo próprio Ramiz Alia, segundo ouvimos dizer – o cardiologista e professor, comunista há 25 anos, secretário do partido na Faculdade de Medicina, Sali Berisha, sob o pretexto de tranquilizar a situação. Sali Berisha, originário dos povoados mais recônditos do norte da Albânia, veio a Tirana para seguir seus estudos universitários financiado pelo Estado. Estudou com zelo e foi enviado várias vezes à França para se especializar. Era um bom médico, mas também ambicioso, autoritário, duro com os amigos. Dizia-se que se mostrava muito devoto e militante corajoso porque pretendia ser eleito para o Comitê Central do PTA, objetivo que jamais pôde realizar, talvez porque se casara com uma albanesa cuja mãe era de Montenegro, ligada à OZNA (serviço secreto iugoslavo). Era esta a razão também por que ele jamais foi chamado para consulta médica por Enver Hoxha como frequentemente se falou.

Sempre ambicioso e carreirista, farejando os ares que sopravam nos países ex-socialistas do Leste europeu, à primeira ocasião que se apresentou na Albânia, ele passou para o lado dos estudantes revoltados. Dando cotoveladas nos estudantes e em outros iniciadores do Partido Democrático, colocou-se à frente desse partido.

Sali Berisha não se acanhou por ter feito uma viragem de 180 graus para se transformar de comunista em anticomunista raivoso. Sua crueldade aumentou com o tempo, transformando-o no primeiro perseguidor impiedoso, paranóico dos comunistas.

Sob acusações absurdas ele mandou prender uns após outros os membros do Birô Político, assim como altos funcionários do Partido e do Estado, inclusive a mim, companheira de Enver Hoxha. Milhares de simpatizantes, funcionários e trabalhadores honestos perderam seus empregos, foram afastados de seus escritórios, das instituições, das escolas, das sessões militares.

Ele se colocou à frente da oposição, mas não de uma oposição política democrática. As pessoas sérias que compreenderam seus propósitos e suas ações vis, se afastaram dele. O movimento de dezembro (1990), que muitas pessoas chamaram de Revolução Democrática, sob a direção de Sali Berisha, transformou-se num movimento fascista anti-revolucionário, em que o próprio se colocou à frente de esquadrões tipicamente mussolinianos e hitleristas. Sua palavra de ordem era: "Morte ao comunismo", a destruição até a "cota zero" de tudo o que houvera sido construído pelo regime comunista, porque os Estados Unidos tinham dado o "cheque em branco" para reconstruir edifícios mais belos e mais modernos.

O Partido Democrático se transformou num conglomerado de pessoas reacionárias, colaboracionistas, de ex-prisioneiros políticos, de proprietários e de ricos deserdados, de pessoas ambiciosas, intelectuais servis e medíocres e de outros ainda desejosos de fazer carreira, entre os quais se encontravam também comunistas.

Foi com a ajuda desse contingente, transbordante de ódio represado durante 50 anos, dos vencidos e deserdados, de políticos suspeitos e corrompidos, que Sali Berisha empreendeu uma campanha feroz de represálias, até ao ponto de atos de vandalismo e macabros.

Ele começou com a demolição dos monumentos e bustos de Stalin e Lênin para mais tarde derrubar os de Enver Hoxha, o que provocou a ira do povo, que se levantou em manifestações massivas de protesto em todo o sul da Albânia e em algumas cidades do norte. Grupos de vândalos, de ex-prisioneiros comuns, incitados e pagos, derrubaram todos os símbolos da Luta Antifascista de Libertação Nacional, destruíram museus, violaram os cemitérios dos guerrilheiros. Eles foram ao ponto de cometer o ato macabro de na calada da noite sem avisar às famílias, desenterrar os restos mortais dos comandantes mais destacados que tinham libertado o país, entre os quais o comandante geral, Enver Hoxha, retirando-os do lugar respeitado designado aos mártires da Nação, onde repousavam ao lado de seus camaradas guerrilheiros. Berisha revogou todas as homenagens concedidas pelos órgãos legítimos do Estado, ao passo que ao mesmo tempo condecorou os colaboracionistas e os criminosos que tinham lutado pela destituição do poder popular e que tinham assassinado professores, pioneiros, jovens mulheres que lutaram pela abertura das escolas e pela emancipação feminina nos povoados mais distantes das regiões montanhosas, onde ainda existiam costumes atrasados e severos.

Após terem levado a Albânia à beira do precipício, as potências ocidentais, os EUA, o FMI e o Banco Mundial ditam agora o que ela deve fazer.

Sali Berisha aboliu por decreto as festas nacionais, o 29 de novembro, a festa da libertação do país que foi realizada ao preço de sangue e de sacrifícios e o 11 de janeiro, dia da proclamação da República.

Os fatos acima mencionados não são sequer a centésima parte de todos os males que Sali Berisha acarretou a nosso povo e nosso país. A indústria voltou à estaca zero, a agricultura retrocedeu ao nível do período do Rei Zog, todos os fenômenos negativos do passado ressuscitaram: as querelas por um pedaço de terra e por um riacho, as antigas vendetas, as doenças endêmicas já inteiramente desaparecidas, ressurgiram os pântanos, apareceram os fenômenos novos da sociedade capitalista, totalmente esquecidos, como a emigração, ou completamente desconhecidos na Albânia, como a droga, a Aids, e absolutamente inaceitáveis, como a prostituição e o crime organizado.

Durante os cinco anos do poder de Sali Berisha não se construiu sequer uma fábrica, a não ser a da coca-cola, inaugurada pomposamente, que Berisha chamou "a andorinha" da nova indústria. Construíram-se apenas 5 km de estrada, quando todas as estradas da Albânia foram mais destruídas que no tempo da guerra. Lançou-se a palavra de ordem: "Nós governamos, o mundo nos ajuda".

Qual a responsabilidade das potências ocidentais pela situação criada na Albânia?

Após a derrubada do sistema socialista, todas as janelas e portas da Albânia se abriram aos estrangeiros. Aqueles que desembarcavam não eram simples turistas, mas políticos, economistas e homens de negócios. Será que estes homens não viam a que estado a Albânia estava se reduzindo e como os valores materiais e culturais do povo albanês, conquistados e mantidos ao longo dos séculos ao preço de sangue e sacrifícios, estavam desaparecendo?

Na Albânia circula o rumor, e não é sem fundamento, de que tudo o que acontece em nosso país faz parte de cenários já preparados nos dois lados do Atlântico. Na época em que Sali Berisha visitava todas as capitais da Europa e os Estados Unidos e propagandeava os resultados obtidos pela Albânia, dizendo que a renda dos cidadãos albaneses era mais elevada do que a de todos os países ex-comunistas do Leste europeu, é possível que todos esses países, assim como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Europeu, não soubessem que na Albânia a produção não existia, que o desemprego era quase total, que a juventude atacava o litoral da Itália e as barreiras da fronteira grega e que finalmente a população sobrevivia graças às fundações das “Pirâmides” rentistas?

Não! Os Estados Unidos, assim como a Europa conheciam bem a situação na Albânia e sabiam que ela se precipitava para a catástrofe. Mas as potências ocidentais pensaram que Sali Berisha era o homem de que precisavam, apoiaram-no, afagaram seu ego, e tudo fizeram para que ele vencesse. Em seus comícios eleitorais era sempre acompanhado pessoalmente pelo embaixador norte-americano, ato ilegítimo e sem precedentes. Ele contou com o apoio declarado da presidente do Conselho da Europa, Madame Eleni Fischer. A Alemanha e a Grã Bretanha enviaram especialistas para dar instruções sobre a organização de uma campanha eleitoral. Com a ajuda de todo tipo de pesquisas manipuladas e de métodos sofisticados, eles tentaram convencer a opinião pública de que a vitória nas eleições de 26 de maio (1997) seria do Partido Democrático, porque nos bastidores, valendo-se de regulamentos e de leis impostos pela maioria do PD no parlamento, foram tomadas todas as medidas para concretizar essa "vitória". Mas os impostores não se contentaram com um percentual razoável e aceitável. Extremamente zelosos e usando violência nas urnas, os democratas roubaram os votos do povo e declararam que obtiveram de 80% a 90% dos votos. Esta vitória embriagou Sali Berisha e quando, em 28 de maio a oposição, os socialistas e seus aliados social democratas e liberais, se lançaram à Praça Skanderbeg, líderes e eleitores desse partido foram impiedosamente batidos e ensanguentados.

Naquele momento, Sali Berisha pensava que doravante ninguém podia arrancá-lo do trono do presidente. Sem levar em conta os informes dos observadores da OSCE, ele marcou as próximas eleições para o ano 2000 e a maioria de seu partido no parlamento deu-lhe o segundo mandato como presidente da República, até que no país declarou-se o estado de guerra. Somente nós, que vivêramos os anos da guerra sob a ocupação nazifascista, conhecíamos o que significava estado de sítio, ao qual tínhamos sido submetidos somente duas vezes no prazo de 24 horas, quando as residências eram inspecionadas, ao passo que o "cessar fogo" era praticado à noite e somente em Tirana. A juventude e as gerações que viveram durante os 50 anos do poder popular não sabiam o que queria dizer cessar-fogo nem estado de sítio.

A estratégia de Enver Hoxha quanto ao desenvolvimento do país e da unidade nacional do ponto de vista histórico e geográfico a Albânia se divide em duas partes, o Norte, chamado Guéguéri e o Sul, chamado Toskeri. Houve no passado remoto diferenças evidentes no terreno da cultura (os dialetos, os costumes e o modo de vida), assim como no terreno religioso e econômico-social. Os inimigos do país quiseram usar essa divisão em benefício de seus interesses expansionistas e chauvinistas. A Sérvia visava ao Norte e a Grécia visava ao Sul. Mas o povo albanês jamais aceitou a idéia de uma luta entre albaneses, de uma guerra civil fratricida, e que o Norte combatesse o Sul e vice-versa. Os grandes representantes do Renascimento albanês realizaram um excelente trabalho quanto à defesa da integridade territorial e da unidade nacional na Albânia.

A religião não era um fator determinante na divisão da população e do país. Os católicos constituem de 10% a 11% da população e se concentram mais no norte, cuja principal cidade é Shkodra. Os ortodoxos constituem cerca de 20% da população e se concentram mais em Korça, Berat, Tirana etc. A outra parte da população é muçulmana e se encontra espalhada por todo o país, mas sua presença é mais evidente nas regiões central e nordeste da Albânia.

No Norte, os católicos sempre estiveram de acordo com os muçulmanos para enfrentar lado a lado as intenções e as agressões dos ortodoxos sérvios e montenegrinos. No Sul, os muçulmanos homenageavam os mártires ortodoxos que haviam sido cruelmente torturados, envenenados e massacrados pelo Patriarcado Ortodoxo de Constantinopla, porque lutaram pela salvaguarda da língua albanesa sob o slogan: "A Albânia é a religião dos albaneses", ou outros lemas como "A Albânia é um único país de sul a norte".

Excetuando Shkodra, onde os católicos em geral e os clérigos eram ligados ao Vaticano e se distinguiam por sua cultura, a outra parte dos católicos vivia nos povoados montanhosos cujas residências encontravam-se afastadas umas das outras em razão da vendeta e das disputas por motivos econômicos, sociais e morais, e devido a inimigos eventuais e agressores estrangeiros. Estas regiões eram extremamente pobres e atrasadas. Os ocupantes nazifascistas se utilizavam dessa situação e recrutavam mercenários que enviaram para fazer a guerra contra o povo que lutava nas cidades e nas montanhas para conquistar a liberdade perdida e sobretudo eles os enviavam ao sul propagandeando que os combatentes nessa região eram os comunistas eslavos e gregos. Um dos pontos mais importantes da estratégia de Enver Hoxha após a libertação do país era o reforço da unidade entre a população do norte – os guégues e a do sul – os tosks. Elaborou-se e colocou-se em prática todo um programa com o objetivo de reduzir as diferenças econômicas, culturais e sociais entre essas regiões. Trabalhou-se no sentido de que a população dessas regiões não se afastasse e que essas regiões estratégicas e bastante cobiçadas pelos sérvios e montenegrinos não se desertificassem.

Foi com esse objetivo que se tentou explorar o subsolo dessas regiões, muito ricas em minerais raros e preciosos, explorar as florestas, as pastagens e desenvolver a pecuária. Havia em cada família alguém que trabalhava nas minas ou nas serragens, sendo que os salários correspondentes a esses postos de trabalho eram mais elevados do que os pagos aos trabalhadores de outras profissões. Para completar o ensino da população dessas regiões, dava-se prioridade nas escolas profissionais e na Universidade ao acesso dos jovens delas provenientes. Sali Berisha é um exemplo de beneficiário desta política.

Sali Berisha fez exatamente todo o contrário. Ele destruiu e colocou fora de funcionamento todas as empresas de produção e estimulou a emigração interna em nome do direito democrático e da liberdade de movimento. O mundo e os estrangeiros não sabem que esta migração da população dentro do país foi mais dolorosa do que a dos refugiados que atacaram a Itália ou a Grécia. Esses imigrantes internos não são menos numerosos do que os que partiram para o exterior, são cerca de meio milhão e são ainda os mais miseráveis, porque habitando nos subúrbios de Tirana e de Durres, falta-lhes abrigo, trabalho e é em seu meio que os bandos criminosos de Berisha encontram refúgio. Aproximando de Tirana esses montanheses pobres e enviando muitos deles para o sul, aos centros mais bonitos e mais produtivos, o espírito diabólico de Berisha visava a obter os seus votos e pretendia, se a ocasião se apresentasse, armá-los, como efetivamente ele o fez para esmagar a revolta popular de Vlora e dos demais centros do Sul, que ele considerava como comunistas e inimigos pessoais.

Traidor e criminoso de sua própria pátria, Berisha fez de tudo para colocar em prática os planos historicamente conhecidos de provocação de uma guerra civil entre o Norte e o Sul, para dividir a Albânia e dar o Norte aos sérvios e o Sul aos gregos. Mas a Itália não podia permanecer como espectadora, ela sempre quis a sua parte. Já não estávamos na época da Segunda Guerra Mundial, não estávamos mais em 1920 nem em 1939, não era mais o tempo da explosão de conflitos. Apesar disso foram enviados para a Albânia tanques de assalto e navios de guerra, soldados bem alimentados, bem equipados e bem armados, para deter o élan dos &apos;rebeldes&apos; albaneses, para esfriar suas cabeças. Em nome da paz e das ajudas humanitárias, as forças multinacionais frearam a revolução popular. Os patriotas albaneses, os antifascistas, os comunistas e todos nós saudamos a decisão do Partido da Refundação Comunista de votar contra o envio de tropas à Albânia, e por isso somos reconhecidos e lhes agradecemos de coração, assim como a todos os amigos que nos apoiaram nestes dias difíceis.

Para nós foi um grande conforto espiritual saber que, embora o povo estivesse armado e que Berisha e seus colaboradores organizassem bandos criminosos que semeiam o caos e aterrorizam as pessoas, não ocorreu nenhum incidente com as forças multinacionais. Foi um grande prazer constatar que o povo, nessa situação explosiva, mostrou sua sabedoria participando em massa nas eleições e dando seu voto aos socialistas, assegurando que estes juntamente com seus aliados obtivessem 2/3 dos assentos no parlamento. Na capital, que era considerada como o bastião do Partido Democrático, os eleitores não deram nenhum voto aos deputados do Partido Democrático.

Estes resultados provam até que ponto o povo detestava Sali Berisha que destruiu e cobriu de vergonha a Albânia, que causou a morte de tantos jovens, que nos privou do Estado, do Exército e tudo mais. Berisha foi a maldição da Albânia, foi o Nero da Albânia.

Mas as inquietações do povo ainda não terminaram. Ele deu seu voto aos socialistas e tem um governo de coalizão, mas está perdendo a paciência e não compreende como se deixa livre, e por quanto tempo, Berisha que cometeu tantos crimes? Este faz de tudo para impedir o trabalho normal do governo, organiza greves de fome, protestos e manifestações quotidianamente, aparece na televisão em coletivas à imprensa etc. As pessoas se perguntam: Quem se esconde atrás desse homem? Além de seus colaboradores próximos, comprometidos em atos criminosos e corrompidos até a medula, quem do outro lado da fronteira quer prolongar a vida política de Sali Berisha? É esta a razão por que nos últimos tempos aumentaram as exigências feitas por grupos de diferentes camadas sociais sobre a legalização do Partido Comunista Albanês, que embora fosse ilegal, obteve grande apoio do eleitorado.

Tudo isso faz com que a situação da Albânia não seja ainda tranqüila nem segura. Após terem levado a Albânia à beira do precipício e os albaneses à pobreza extrema, as potências ocidentais, os Estados Unidos, o Conselho da Europa, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial podem ditar à Albânia o que ela deve fazer.

Nós perdemos a independência política e econômica, mas o povo albanês sempre lutou no curso da história para sobreviver, pela independência, pela liberdade. A revolta popular de Vlora e de todos os centros do Sul,assim como a solidariedade manifestada pelo Norte comprovam uma vez mais o espírito combatente do povo, que nos dá a coragem e nos faz esperar por melhores dias para a Albânia e os albaneses”.

 

* Discurso realizado na cidade italiana de Teramo (1997).

 

EDIÇÃO 50, AGO/SET/OUT, 1998, PÁGINAS 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36