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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Partido Comunista - Vanguarda da Classe Operária (Stálin)


O Partido Comunista – Vanguarda da Classe Operária

Por Josef Stálin

 

O Partido tem que ser, antes de tudo, o destacamento de vanguarda da classe operária. O Partido tem que incorporar em suas fileiras a todos os melhores elementos da classe operária, assimilar sua experiência, seu espírito revolucionário, sua abnegação sem limites pela causa do proletariado. Mas para ser um verdadeiro destacamento de vanguarda, o Partido tem que estar aparelhado com uma teoria revolucionária, com o conhecimento das leis do movimento, com o conhecimento das leis da revolução. Sem isto, não terá forças bastantes para dirigir a luta do proletariado, para conduzi-lo atrás de si. O Partido não pode ser o verdadeiro Partido se se limita a registrar o que vive e o que pensa a massa da classe operária, se marcha a reboque do movimento espontâneo desta, se não sabe vencer a inércia e a indiferença política do movimento espontâneo, se não é capaz de elevar-se acima dos interesses momentâneos do proletariado, se não sabe elevar as massas ao nível dos interesses de classe do proletariado. O Partido tem que marchar à frente da classe operária, tem que ver mais longe que a classe operária, tem que conduzir atrás de si o proletariado e não marchar a reboque da espontaneidade. Os partidos da Segunda Internacional, que pregam o "seguidismo", são os portadores da política burguesa, que condena o proletariado ao papel de um instrumento posto em mãos da burguesia. Só um Partido que se coloque no ponto de vista de destacamento de vanguarda da classe operária e seja capaz de elevar-se até o nível dos interesses de classe do proletariado, só um Partido assim é capaz de afastar a classe operária do caminho do "tradeunionismo" e fazer dela uma força política independente. O Partido é o dirigente político da classe operária.

 

Falei mais acima das dificuldades da luta da classe operária, da complexidade das condições da luta, da estratégia e da tática, das reservas e das manobras, da ofensiva e da retirada. Estas condições são tão complexas, se não mais, quanto as condições da guerra. Quem pode se orientar nestas condições, quem pode dar uma orientação acertada às massas de milhões de proletários? Nenhum exército em guerra pode prescindir de um Estado Maior perito, se não quiser se ver condenado à derrota. Acaso não é claro que tão pouco o proletariado, e com maior razão, pode prescindir deste Estado maior, se não quiser ficar a mercê de seus inimigos jurados? Mas, qual é seu Estado Maior? Não pode ser outro senão o Partido revolucionário do proletariado. Sem um Partido revolucionário, a classe operária é como um exército sem Estado Maior. O Partido é o Estado Maior de combate do proletariado.

 

Mas, o Partido não pode ser apenas um destacamento de vanguarda, tem que ser, ao mesmo tempo, um destacamento da classe, uma parte da classe, intimamente ligada a esta com todas as raízes na sua existência. A diferença entre o destacamento de vanguarda e o resto da massa da classe operária, entre os membros do Partido e os sem partido, não pode desaparecer enquanto não desaparecerem as classes, enquanto o proletariado vir suas fileiras serem engrossadas com elementos procedentes de outras classes, enquanto a classe operária em seu conjunto não tiver a possibilidade de elevar-se até o nível do destacamento de vanguarda. Mas o Partido deixaria de ser tal partido se esta diferença se convertesse em uma ruptura, se se encerrasse em si mesmo e se afastasse das massas sem partido. O Partido não pode dirigir a classe se não está ligado às massas sem partido, se não existem laços de união entre o Partido e as massas sem partido, se estas massas não aceitam sua direção, se o Partido não goza de crédito moral e político entre as massas. Há algum tempo ingressaram em nosso Partido duzentos mil novos filiados operários. O que há de notável aqui é o fato de que estes operários, não só vieram por eles mesmos ao Partido, mas que foram mandados a ele por todo o resto da massa sem partido, que tomou parte ativa na admissão dos novos membros e sem cuja aprovação estes não teriam sido admitidos. Este fato demonstra que as grandes massas de operários sem partido vêem em nosso Partido o seu Partido, o Partido mais próximo e mais querido, em cujo engrandecimento e fortalecimento se acham profundamente interessados e a cuja direção confiam de bom grado a sua sorte. Desnecessário demonstrar que sem esses fios imperceptíveis que unem nosso Partido com as massas sem partido, o Partido não poderia converter-se na força decisiva de sua classe. O Partido é uma parte inseparável da classe operária.

 

"Nós — diz Lenin — somos partido de classe e por isso quase toda a classe (e em tempo de guerra, em épocas de guerra civil, a classe em sua totalidade) tem que atuar sob a direção de nosso Partido, deve ter com o nosso Partido o contacto mais estreito possível; mas seria manilovismo[1] e "seguidismo" acreditar que quase toda ou toda a classe pode estar algum dia, sob o capitalismo, em condições de elevar-se ao grau de consciência e de atividade de seu destacamento de vanguarda, de seu Partido socialista. Nenhum socialista em juízo perfeito jamais pôs em dúvida que, sob o capitalismo, nem mesmo a organização sindical (mais primitiva e mais acessível ao grau de consciência das camadas menos desenvolvidas) está em condições de abranger toda ou quase toda a classe operária. Esquecer a diferença que existe entre o destacamento de vanguarda e toda a massa que marcha atrás dele, esquecer o dever constante que tem o destacamento de vanguarda de elevar camadas cada vez mais amplas a seu próprio nível avançado, não significa outra coisa senão enganar-se a si próprio, fechar os olhos à imensidade de nossas tarefas e amesquinhá-las". (Lenin, "Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás").

 



[1] "Manilovismo": placidez, inatividade, imaginação ociosa. De Manilov, um dos personagens da novela de Gogol, "Almas Mortas"


Fonte - Arquivo Marxista na Internet

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Valor das Liberdades Democráticas num Estado Burguês e as Formas de Aproveitá-las


 

O Valor das “Liberdades Democráticas” num Estado Burguês e as Formas de Aproveitá-las[1]

Enver Hoxha[2]

Traduzido por: Ícaro Leal Alves[3]


 

 

A burguesia e, junto a ela, os revisionistas modernos, falam e fazem cálculos sobre as liberdades democráticas. Com efeito, em cada Estado burguês denominado democrático, existem algumas liberdades democráticas relativas. Dizemos relativas, porque não ultrapassam jamais o limite da concepção burguesa de “liberdade” e de democracia, porque não chegam jamais ao ponto de prejudicar os interesses vitais da burguesia no poder.

            Naturalmente, a classe operária e os homens progressistas aproveitam essas condições para organizar-se, para difundir suas concepções e ideologia, e para preparar o derrubamento das classes exploradoras e a tomada do poder.

            Depois da Segunda Guerra Mundial, em muitos países capitalistas da Europa, como resultado da vitória sobre o fascismo e do papel desempenhado pelos partidos comunistas na luta antifascistas, esses partidos chegam inclusive a participar do governo (por exemplo, na França, na Itália, na Finlândia, etc.) e até conquistar uma ampla bancada de deputados no parlamento, importantes cargos no aparelho de Estado, e inclusive no Exército, etc.

            Igualmente, em diferentes períodos durante os últimos 15 anos, se criaram condições favoráveis para o partido da classe operária e as forças progressistas em alguns países do Oriente Médio, como Irã e Iraque, e da América Latina, como Guatemala, Brasil, Equador, Venezuela e outros. Na Indonésia se criou uma situação bastante favorável. O Partido Comunista da Indonésia cresceu com bastante rapidez, fazia parte do governo e exercia uma grande influência na política interior e exterior do país, etc.

            Porém, também nas condições das “liberdades democráticas”, se desenvolve uma aguda luta de classes, uma luta de vida ou morte, entre a revolução e a reação, entre o proletariado e a burguesia. Se o proletariado e o seu partido se esforçam para consolidar as suas posições, por sua vez, a burguesia e a reação não dormem. Pelo contrário, valendo-se do aparelho estatal burguês, da policia e das forças armadas, praticando a corrupção e a subversão, alimentando o oportunismo e as ilusões reformistas e pacifistas no seio da classe operária, etc., se preparam seriamente para consolidar suas posições e desbaratar o governo e as forças revolucionárias.

            O desenvolvimento dos acontecimentos depois da Segunda Guerra Mundial mostra que, no marco das “liberdades democráticas”, a burguesia atua energicamente e de diferentes formas para liquidar o movimento revolucionário da classe operária.

            Depois que a burguesia e a reação lograram consolidar suas posições, expulsaram os comunistas do governo, dos postos importantes no aparelho de Estado e do Exército, como sucedeu na Itália, França e Finlândia. Na Inglaterra, Áustria e outros países, nem sequer foi tolerada a presença dos comunistas no parlamento, como na Grécia foram encarcerados e combatidos pela força das armas.

            Quando a burguesia e a reação constatam que seu poder está ameaçado pela força e o prestigio crescente do Partido Comunista e do movimento revolucionário das massas, jogam sua última cartada: põem em ação as forças armadas, organizam progroms para esmagar e liquidar o movimento revolucionário e os partidos comunistas, como sucedeu em Irã e Iraque, e, recentemente, com os trágicos acontecimentos da Indonésia. Em tais casos a reação e a burguesia de um país dado aproveitam-se diretamente da ajuda da reação mundial, inclusive o apoio das formas armadas, como ocorreu na República Dominicana e outros lugares.

            Que conclusão se pode tirar desta experiência histórica?

            Primeiro, que as chamadas “liberdade burguesa” e “liberdade democrática” nos países capitalistas não são suficientes para permitir aos partidos comunistas e aos grupos revolucionários alcançarem seus objetivos. De nenhum modo. A burguesia tolera a atividade dos revolucionários enquanto essa não constitui uma ameaça para o poder de classe da burguesia. Quando este poder está em perigo, ou quando a reação encontra o momento propicio, sufoca as liberdades democráticas, recorre a todos os meios, sem nenhum escrúpulo moral nem político, para destruir as forças revolucionárias. Em todos os países em que se há permitido aos partidos comunistas militar abertamente, a burguesia e a reação aproveitam essa situação para conhecer toda atividade, as pessoas, os métodos de trabalho e de luta dos partidos marxista-leninistas e dos revolucionários. Por isso, os comunistas e seus partidos autenticamente marxista-leninistas cometeriam um erro fatal se tiverem confiança nas “liberdades” burguesas que os proporciona a conjectura, se fizer tudo abertamente e não guardar segredo de sua organização e de seus planos. Os comunistas devem aproveitar as condições do trabalho legal, inclusive para desenvolver um amplo trabalho propagandístico e organizativo, porém, ao mesmo tempo, devem estar preparados para o trabalho clandestino.

            Segundo, as ilusões oportunistas sobre a “via pacífica” para a tomada do poder são um blefe e representam um grande perigo para o movimento revolucionário. Em aparência, o Partido Comunista da Indonésia parecia ter o terreno mais favorável para alcança seu objetivo seguindo essa via. Não obstante, os comunistas indonésios haviam declarado mais de uma vez que não criavam ilusões sobre a “via pacífica”. Em sua saudação ao Congresso do PC da Nova Zelândia, a delegação do Comitê Central do PC da Indonésia confirmava que “os acontecimentos da Indonésia demonstraram que não existe nenhuma classe dominante... nem força reacionária que permita as forças revolucionárias conquistar a vitória pela ‘via pacífica’”. Os comunistas extraem dos trágicos acontecimentos da Indonésia o ensinamento de que não é suficiente descartar as ilusões oportunistas sobre a “via pacífica” e reconhecer que a única via para a tomada do poder é a via revolucionária da luta armada. O partido do proletariado, os marxista-leninistas e todo revolucionário deve tomar medidas efetivas para preparar a revolução, começando pela educação dos comunistas e das massas no espirito militante revolucionário e chegando até sua preparação concreta para fazer frente à violência contrarrevolucionária da reação com a luta armada revolucionária das massas populares.

            Terceiro, independentemente das condições e das posições favoráveis que pode disfrutar em determinado momento, o partido da classe operária não deve relaxar em nenhum momento a vigilância revolucionária, sobrestimar sua forças e a de seus aliados e subestimar a força do adversário, da burguesia e da reação. O Partido Comunista da Indonésia gozava de uma grande influência no país, porém parece que sobrestimou em particular a força política de Sukarno e do setor da burguesia que lhe apoiava, e teve demasiada confiança em sua força. Ao mesmo tempo, parece que subestimou a força da reação, em particular da reação no exército. Ao que parece os camaradas indonésios pensavam que o que tinha Sukarno por sua parte, lhe dava a regias do poder na Indonésia, sem analisar devidamente em que consistia a força de Sukarno[4] e até que ponto está força era real, particularmente entre o povo. Os recentes acontecimento da Indonésia demonstraram claramente que o prestigio e a autoridade de Sukarno não se apoiava em uma base social, econômica e política sólida. Os generais reacionários conseguiram neutralizar Sukarno, e inclusive, enquanto foi adequando, o exploraram para seus fins contrarrevolucionários.

            Quarto, o partido marxista-leninista e todos os revolucionários devem seguir consequentemente e resolutamente uma linha revolucionária e lutar audazmente contra o oportunismo e sua mais sórdida manifestação, o revisionismo moderno, tanto o kruschovista quanto o titista. Os oportunistas e os revisionistas modernos fizeram da luta pelas “liberdades” burguesas sua bandeira e renunciaram a revolução, preconizam a “via pacífica” como a única via para a tomada do poder. Precisamente a linha oportunista e revisionista, a influência dos revisionistas kruschovistas, etc., transformou numerosos partidos comunistas, que no passado constituíram uma grande força revolucionária, em partidos de reforma social, em cãezinhos de colo da burguesia reacionária. Isso aconteceu com os partidos comunistas da Itália, da França, da Finlândia, da Inglaterra, da Áustria e outros. A aplicação da linha oportunista do XX Congresso dos kruschovistas conduziu a catástrofe e a liquidação ao Partido Comunista do Iraque, ao Partido Comunista do Brasil, ao Partido Comunista da Argélia, etc. O Partido Comunista da Indonésia se opõe ao revisionismo moderno. Os últimos acontecimentos da Indonésia e o papel de sapa que os revisionistas kruschovistas jogaram ali, um verdadeiro partido revolucionário, fiel ao marxismo-leninismo, decidido a levar audazmente adiante a revolução, deve manter uma atitude bem definida frente ao oportunismo, ao revisionismo kruschovista e titista. Não basta solidarizar-se com a luta dos marxista-leninistas contra o revisionismo, é preciso também que o partido lute de maneira intransigente e aberta contra a traição revisionista, porque somente assim podem os comunistas educar-se no espírito revolucionário e pode ser preservado o partido de todo perigo de revisionismo. Sem combater resoluta e consequentemente contra o oportunismo e o revisionismo kruschovista, não se pode combater a reação, não se pode impulsionar a causa da revolução e do socialismo.



[1]Extraído do Artigo “El Golpe Fascista em Indonesia y las Enseñanzas que Extraen de el los Comunistas” publicado em albanês no Zëri i Popullit de 11 de Maio de 1966. Tomamos como base para essa tradução a versão em espanhol do artigo de Enver Hoxha encontrada na publicação HOXHA, Enver. Obras Escogidas, IV, Febrero de 1966 – Julio de 1975: – Casa Editora <<8 Nëntori>>, Tirana, 1983. O artigo se encontra entre as páginas 19-35 e a parte aqui traduzida páginas 22-27.
[2]Fundador do Partido Comunista da Albânia (depois Partido do Trabalho da Albânia) e seu secretário-geral durante quatro décadas (de 1941-1985). Liderou a Luta de Libertação Nacional do povo albanês contra o fascismo e o nazismo italiano e alemão, organizando a Frente de Libertação Nacional (em Setembro de 1942) e comandado o Exército de Libertação Nacional Albanês (criado em Julho de 1943). Após a expulsão das tropas de ocupação nazifascistas, em Novembro de 1944, dirigiu o primeiro governo democrático popular da Albânia liberada, proclamando, em janeiro de 1946, a República Popular da Albânia. Serviu como primeiro-ministro da RP da Albânia entre os anos de 1944-1953. Durante seu governo os colaboracionistas foram submetidos a tribunais populares, realizou-se a reforma agrária, a indústria, os bancos, o comércio interno e externo foram nacionalizados, institui-se a direção planificada da economia através do sistema dos planos quinquenais e iniciou-se a industrialização e coletivização da agricultura. O Estado Albanês foi modernizado desligando-se da religião. A mulher albanesa, durante séculos oprimida pelas tradições medievais conhece um progressivo processo de emancipação. Combateu-se doenças epidêmicas largamente disseminadas pelo país e também o analfabetismo. O governo realizou uma atividade intensa pela elevação geral do nível cultural dos trabalhadores. Após os XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética Hoxha lutou contra o revisionismo kruschovista. Com uma larga experiência de luta contra o revisionismo titista, que com suas intensões expansionistas ameaçava recolonizar a Albânia socialista, Enver transformou-se no mais importante defensor do conteúdo revolucionário do marxismo-leninismo, do legado histórico do Camarada Stálin contra as calúnias revisionistas e um verdadeiro farol para a vitória do socialismo e da causa da libertação nacional dos povos coloniais e oprimidos. Acreditava que só a revolução conduzida pelo partido marxista-leninista poderia livra os povos da opressão imperialista e capitalista.
[3] Estudante de História na Universidade Católica do Salvador
[4] Sukarno foi presidente da Indonésia de 1945 a 1967. Como muitos javaneses, Sukarno não tinha sobrenome.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Democracia Popular x Democracia como Valor Universal


Democracia popular x Democracia como valor universal ou: como Carlos Nelson Coutinho arruinou a esquerda brasileira

 

Por: Lúcio Jr.[1]

 

Escrevo esse artigo mais como militante do que como artigo científico. É mais um artigo de combate, dirigido contra a enorme moda do marxismo gramsciano no Brasil, uma verdadeira “Gramsci-mania”.

Os conceitos de Gramsci hoje são a forma por excelência com que o revisionismo anula o marxismo-leninismo no Brasil e precisam urgentemente ser combatidos e contestados. O conceito de bloco histórico desmantela a idéia do Partido de Vanguarda, a criação de uma hegemonia fornece argumentos para a falácia da revolução socialista pela via parlamentar, a divisão entre marxismo ocidental e oriental, já exposta pelo esquerdista Pannekoek nos anos 20, serve para melhor desvalorizar a experiência russa como modelo, descartando Lênin, que só seria útil para a Rússia e suas particularidades. Na prática, esquerdistas como Pannekoek, ao deixar de lado o norte que é a teoria de Lênin, oscilam entre a revolução de qualquer jeito agora e o derrotismo profundo, quando não, passam para o lado da reação, em geral a troco de remuneração.

Quando lançou Democracia como Valor Universal, Carlos Nelson Coutinho, na realidade estava conclamando a esquerda brasileira para deixar de lado a perspectiva revolucionária e aderir ao reformismo, a ocupar cargos na “porosa” máquina estatal, nas universidades, ONGs, prefeituras, no que foi extremamente bem sucedido. Mas, Coutinho precisava ir ao baile da esquerda vender seu peixe empesteado com um disfarce elegante e democrático, acima de qualquer suspeita. Ele vai achar o disfarce perfeito no Gramsci dos anos 30, quando Gramsci produziu suas teorias aparentemente de acordo com a frente popular e a aliança de todos contra o fascismo, o Gramsci que vivia encarcerado e foi fiel ao partido comunista até o fim. A duplicidade política de Gramsci lhe cai como uma luva. É justamente dessas posições ambivalentes que ele precisa. Para poder abandonar Lênin com alguma credibilidade, Coutinho não recorre ao costumeiro e sórdido Trotsky. Trazer à baila textos de Trotsky é trazer ao centro da cena o pensamento de Stálin, uma vez que derrotar Stálin é a sua grande obsessão, perseguida com uma nota histérica, em boa parte dos textos de Trotsky. A prática esquerdista dos trotskistas obviamente é mais um elemento para que Coutinho decida se afastar deles. Gramsci vai lhe dar uma máscara extremamente respeitável.

A explicação para a não-ocorrência da revolução no Ocidente que Gramsci encontra é falsa. Ele imagina que, mesmo se conquistarmos o Estado, a sociedade civil resistirá ao socialismo, então é preciso conquistar primeiro essa tal “sociedade civil”, conquistar cargos nos parlamentos, universidades, etc. Ora, a tal sociedade civil não passa de um lugar onde interesses particulares contraditórios disputam: é o lobby dos evangélicos contra a comunidade LGBT, etc.

A explicação para o fracasso da revolução no Ocidente já está em O Imperialismo, de Lênin, que o invejoso e tolo Gramsci teima em esquecer: a transição do capitalismo da livre concorrência para os monopólios fez com que surgissem setores privilegiados do proletariado, “aristocracias do proletariado”. Esses setores são a perdição dos trabalhadores! Corrompidos pelos sentimentos nacionalistas e pelos ganhos com a colonização e pilhagem dos povos coloniais e dependentes, esses setores passam ativamente a representar o interesse do imperialismo junto ao proletariado, sabotando e anulando suas lutas.

No Brasil, o ABC paulista e o PT são um bom exemplo dessa traição. O PT nasce num setor operário conciliador com o imperialismo americano e alia-se à pequena burguesia radicalizada. Com a vitória do imperialismo na Guerra Fria, deixam de lado a roupagem socialista e social-democrata e tornam-se neoliberais entusiasmados, embora prossigam, como o professor Jarbas Guimarães da UFMG, papagaiando incansavelmente o socialismo democrático e gerenciando um governo que privatiza aeroportos.

O que Carlos Nelson Coutinho fez, em seu, hoje clássico; Democracia como Valor Universal, foi praticamente uma reedição, com nova e bela roupagem, das teses revisionistas que estavam causando a decadência do socialismo na União Soviética a partir da subida de Kruschev em 1956:

1) Coutinho acredita que é possível chegar ao poder sem destruir o estado burguês, pela via parlamentar. Essa é uma das teses kruschevistas clássicas. Isso refuta Lênin. Lênin é bem claro a respeito disso em O Estado e a Revolução, não é uma metáfora, como escreve Coutinho. Isso de “é uma metáfora” é um truque típico desse grande enganador, desse execrável charlatão acadêmico que é o Carlos Nelson Coutinho.

2) Coutinho também propõe que a luta de classes não se agrava no socialismo. Um hit kruschevista, feito para deixar os comunistas serem pegos distraídos por todo tipo de reacionário. É evidente que essa luta se agrava! Imaginemos um empresário que passou a vida toda gozando de ócio e privilégios e passa a ter, com a estatização, de trabalhar como todos os outros. Pode-se supor que essa pessoa não tentaria de todas as formas reaver a sua propriedade, a sua situação anterior? Se hoje vemos que madeireiros são capazes de matar para defender seu direito de extrair madeira ilegal, o que seriam capazes de fazer sem a empresa? Respondo: sabotar, aliar-se a serviços secretos estrangeiros, organizar grupos armados para lutar contra o Estado socialista. Justamente o que ocorreu nos anos 30 com o grupo zinovievista-trotskista. Reprimir e julgar esses traidores é considerado abominação, embora até mesmo a Constituição brasileira preveja que, em caso de guerra, é prevista a pena de morte para sabotadores, traidores e espiões.

3) Coutinho escreve – nesse artigo que deu origem ao PSOL – sobre as maravilhas da “Autogestão”. Na Iugoslávia de Tito, essa era a senha para “restauração do capitalismo”.  Não por acaso, Lukács também fala em Autogestão, e, em 1956, deixou cair a máscara e propôs a restauração do capitalismo abertamente. A lorota da Autogestão é também um disfarce perfeito para o revisionismo, que assim posa de muito democrático, embora ele seja burocrático e autoritário. Coutinho chega a especular que as Comunidades Eclesiais de Base seriam uma forma de democracia direta. Ora, as CEBs são somente organizações de base da Igreja Católica, aliás, hoje totalmente desarticuladas em prol da organização a partir da mídia monopolista, que é a opção desastrosa da Igreja Católica hoje em dia. Coutinho não quer fazer uma avaliação da realidade brasileira tendo em vista a revolução. É bem outro o seu intento. Ele quer vender uma mercadoria que traz a peste para a esquerda, mas ele, pessoalmente, lucrará com destaque e vantagens pessoais. É o festejado “gramsciano”.

A tese da democracia como valor universal de Carlos Nelson Coutinho é uma jóia de disfarce, matreirice e mentira, foi perfeita sob medida para a transição conservadora brasileira, por isso foi tão propagandeada por setores reacionários. Serve maravilhosamente a eles! Coutinho faz com que a ditadura da classe burguesa, que permanece impondo o seu totalitarismo na democracia capitalista, fique totalmente invisível. Para a burguesia, isso é maravilhoso, é fantástico.

Outra falácia que tem de ser denunciada é a posição equivocada de Coutinho sobre a contrarrevolução de 64, um dos regimes mais selvagens do pós Segunda Guerra, comparável ao nazismo de Hitler. Ela passa a ser considerada, com conceitos tirados do buquê gramsciano, exemplo de “revolução pelo alto”, “revolução passiva”, “pela via prussiana”. O sentido principal de 64 foi arrasar o processo de descolonização que vivia o país; a longo prazo, o sucesso foi total e completo. Exatamente o contrário do que fez Bismarck, guerreando contra três países para acabar com a dominação externa. Coutinho literalmente chamou “urubu” de “meu loiro” nessa análise. Será ele inocente? Temo que não! Ele é reacionário mal intencionado mesmo!

A verdadeira cerejinha do bolo foi mesmo quando encontrei, nas notas do artigo de Carlos Nelson Coutinho sobre Democracia como Valor Universal, um elogio discreto às idéias de Fernando Henrique Cardoso, que iriam “muito além do liberalismo”! Fernando Henrique e seu grupo são traidores profissionais da esquerda, eles e o seu gancho do pentágono do Brasil, que é o CEBRAP, Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, uma estrutura elaborada na Guerra Fria para conquistar os intelectuais brasileiros e que teve para sua instalação 18 mil dólares da Fundação Ford. Nos anos 50, Fernando Henrique, Octavio Ianni e a trupe revisionista (que é a ligação da corja da USP com José Paulo Netto e a Carlos Nelson Coutinho) organizaram, na USP, um festivo e badalativo seminário de O Capital para poderem disseminar o revisionismo e foram extraordinariamente bem sucedidos. A broca penetrou no Partido Comunista Brasileiro, nos movimentos sociais e se alastrou feito uma praga através das universidades, uma vez que a USP é a grande disseminadora da modernidade intelectual para o Brasil. Eles plantaram a sementinha no lugar certo nos anos 50 e, nos anos 90, colheram com sofreguidão o fruto sujo de sangue da ruína da esquerda e da recolonização do Brasil. Nada como ler O Capital para ganhar dinheiro!!!

Para não dizer que não concordo com nada do que Coutinho diz no já canônico artigo Democracia como Valor Universal, eu digo que concordo que é preciso participar de eleições e ampliar essa democracia que está aí. Mas sem esquecer de dizer que através dela a burguesia está buscando o domínio total da sociedade, ou seja, a democracia capitalista é a ditadura da burguesia disfarçada! Ela espiona a esquerda, monitora os movimentos sociais, obtém o predomínio através da indústria cultural, é uma fachada. Até mesmo o Iraque e o Afeganistão têm um arremedo de democracia capitalista, embora sejam países ocupados militarmente pelo imperialismo.

A ditadura da burguesia disfarçada funciona assim: se tentarmos modificá-la por dentro, se avançarmos em conquistar os espaços nesse Estado para revolucioná-lo, essa estrutura reagirá por vias legais e ilegais. Uma das possibilidades é que as milícias compostas por ex-policiais que existem no Rio e que hoje matam e aterrorizam a população se voltarão contra os líderes da esquerda, formando grupos de paramilitares que podem dar origem a partidos de extrema-direita.

O debate sobre democracia e socialismo no Brasil parece encerrado, com a vitória absoluta do democrata pequeno-burguês de fraseologia falsamente socialista Carlos Nelson Coutinho e seus inúmeros seguidores, que arruínam praticamente todo o marxismo no Brasil hoje. O sucesso deles é tanto que agora há inclusive um partido inspirado em suas idéias: o Partido Socialismo e Liberdade. O futuro do PSOL, por tudo o que está anunciado, é ser o PT do futuro: assumir cargos na máquina estatal e discursar a favor do socialismo com liberdade. Agir com autoritarismo e tomar atitudes burocráticas, não debater nada internamente, mas sempre discursar contra o centralismo democrático, contra o “stalinismo”. O melhor disfarce do burocrata autoritário é denunciar o suposto autoritarismo e burocratismo de Stálin, Mao e Pol Pot, compilando calúnias e difamações estúpidas, fazendo coro com os anticomunistas, etc. Oxalá esse artigo consiga fazer algo para reverter essa patranha!



[1] Professor de Filosofia

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Lênin e a Ditadura do Proletariado


Lênin e a Ditadura do Proletariado

As Tarefas da Revolução Proletária Frente à Máquina do Estado

Por: Ícaro Leal Alves[1]

Escrito em julho de 2011

 

 

A questão da ditadura do proletariado é um ponto central do marxismo. Sem a sua compreensão precisa é impossível torna-se um marxista dotado de uma visão revolucionária de classe. Com efeito, ela tem sido a questão mais obscurecida em toda a história da teoria marxista. E no panteão dos seus embusteiros estão, os anarquistas, trotskistas, socialdemocratas e revisionistas modernos.

            Já em 1917, avaliando a situação difícil em que se encontrava a socialdemocracia internacional, Lênin afirmava que,

Mais a direita do que Kautsky no socialismo internacional estão correntes como os Cadernos mensais socialistas na Alemanha (Legien David, Kolb e muitos outros, incluindo os escandinavos Stauning e Branting), os jauresistas e Vandervelde na França e na Bélgica, Turati, Tréves e outros representantes da ala direita do partido italiano, os fabianos e os independentes... em Inglaterra, e outros que tais. Todos esses senhores, que desempenham um papel enorme, muitas vezes preponderante, no trabalho parlamentar e na publicística do partido, negam abertamente a ditadura do proletariado e praticam um oportunismo descarado. Para estes senhores, a “ditadura” do proletariado “contradiz” a democracia! No fundo nada de sério os diferencia dos democratas pequeno-burgueses[2].

E nada de sério diferencia as demais correntes, que se opõe ao marxismo através da negação da ditadura do proletariado. Não importa a matiz radical que se atribuam e suas frases de efeito, que soam revolucionárias. Todas se equacionam num campo comum, opor os conceitos de democracia em geral aos de ditadura em geral e assim refutar a tese central do marxismo sobre a questão do Estado e da Revolução.

            Enquanto o movimento comunista internacional manteve-se fiel a teoria marxista-leninista tudo correu bem. E sobre essa base granítica os povos do mundo sacudiram as bases do imperialismo. Após a derrota das tropas nazifascistas, em Maio de 1945, pelo Exército Vermelho da URSS, comandado pelo seu marechal, o camarada Josef V. Stálin, a correlação entre as forças do capitalismo, do imperialismo e do fascismo, por um lado, e as forças da democracia, da libertação nacional e do socialismo, por outro, mudou radicalmente. Por toda a Europa e em muitos outros países do mundo, formaram-se repúblicas democráticas baseadas nos princípios do antifascismo. As democracias populares do Leste da Europa caminharam pela via do socialismo, mirando-se no exemplo impar do Partido Bolchevique de Lênin e Stálin. Na Ásia e depois na África, os povos oprimidos pelo jugo nacional destruíram por completo o velho sistema colonialista do imperialismo e por toda a parte surgiram novos Estados nacionais encaminhados para a via anti-imperialista. Destaca-se entre eles o exemplo do Vietnã, que sob o luminoso caminho indicado pelo presidente Ho Chi Minh, resistiu a maior guerra de agressão do segundo pós-guerra e infligiu aos Estados Unidos a maior derrota militar de sua História. Até a América-Latina levantou-se de vez contra o domínio neocolonialista dos Estados Unidos. Inspirados no exemplo da Revolução Cubana de Fidel e de Che movimentos guerrilheiros lutaram contra as sangrentas ditaduras militares por todo continente.

            Porém a ascensão da camarilha revisionista-capitalista ao Poder na URSS, país centro da revolução mundial, debilitou enormemente a unidade do proletariado e de todos os povos oprimidos do mundo em torno dos princípios leninistas. A partir do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Fevereiro-Março de 1956, Nikita Kruschov, apoiando-se principalmente nas calunias lançadas há muito pelo imperialismo-capitalista e o fascismo contra o camarada Stálin, inicia seu trabalho de transformação do Partido de Lênin e Stálin, em partido da contrarrevolução, em centro do oportunismo e da colaboração com o imperialismo. Um dos pontos centrais da sua revisão moderna do marxismo, que ele vai retirar de Browder[3], consiste em negar a necessidade da ditadura do proletariado e com isso negar a revolução proletária como caminho indispensável para o socialismo. Os revisionistas alimentam todas as ilusões possíveis quanto ao “socialismo de face humana”, - Tito na Iugoslávia – o “Estado de Todo Povo”, – Kruschov na URSS – fazer valer a verdadeira “vocação humanitária do movimento comunista”, – Dubcek na Tchecoslováquia – encontra a “via nacional para o socialismo” – Marchais na França – sobre o “compromisso histórico” com a democracia – Togliatti e Berlinger na Itália. Em todos os casos se desembocou de forma mais ou menos radical no oportunismo de direita. O Partido Comunista Espanhol de Carrillo-Ibárruri chegou até ao reconhecimento do Estado espanhol monárquico-franquista como legítimo.

            O revisionismo moderno resultou no colapso do socialismo na URSS e nas democracias populares do Leste-Europeu. Mais uma vez, apesar de todas as suas especificidades, o denominador comum é a negação da ditadura do proletariado, a negação da necessidade da revolução proletária, a distorção das concepções marxistas sobre o Estado.

            Em nossos dias quando a luta da classe operária e dos povos oprimidos, da União Europeia a América e no Mundo Árabe, ganha novo fôlego, torna-se indispensável retomar essas teses. Estudá-las tem uma importância revolucionária. Propomos aqui reconstruir, através dos textos primários – as próprias obras de Marx, Engels e Lênin – os fundamentos do marxismo-leninismo sobre essa questão.

Capítulo I – O método de Marx

Em sua obra, O Estado e a Revolução, escrita, em Julho-Agosto de 1917, Lênin, faz um balanço da doutrina do marxismo sobre as tarefas da revolução proletária frente à máquina do Estado burguês. Ele afirma que a história reservara a Marx o mesmo destino que reservara a todos os grandes homens, a todos aqueles que realmente criaram algo de admirável, os revolucionários. Durante toda a sua vida a sociedade reservara a Marx a perseguição policial e o exílio. Mas, após sua morte, erguem-se monumentos a ele e a sua obra. Mesmo nas universidades dos países capitalistas o marxismo se transforma numa febre. Todos se tornam marxistas. Porém aquilo que o marxismo tem de essencial, seu núcleo revolucionário, é esquecido ou renegado.

Com a doutrina de Marx acontece hoje o que aconteceu mais de uma vez na história com as doutrinas dos pensadores revolucionários e dos chefes das classes oprimidas na sua luta pela libertação. As classes opressoras, durante a vida dos grandes revolucionários, retribuíram-nos com incessantes perseguições, acolhiam a sua doutrina com a fúria mais selvagem, com o ódio mais feroz, com as mais furibundas campanhas de mentiras e calúnias. Depois da sua morte tenta-se transforma-los em ícones inofensivos, canoniza-los, por assim dizer, conceder a seu nome uma certa glória para <<consolar>> a classe oprimida e para a enganar, castrando o conteúdo da doutrina revolucionária, embotando o seu gume revolucionário, vulgarizando-o. Neste arranjo do marxismo encontra-se agora a burguesia e os oportunistas do movimento operário. Esquece-se, afasta-se, deturpa-se o lado revolucionário da doutrina, a sua alma revolucionária. Coloca-se em primeiro plano, glorifica-se, aquilo é aceitável ou que parece aceitável para a burguesia. Todos os social-chauvinistas são hoje <<marxistas>> - não se riam! E cada vez mais frequentemente os sábios burgueses alemães, ainda ontem especialistas na destruição do marxismo, falam de um Marx <<nacional-alemão>>, que teria educado as associações operárias tão admiravelmente organizadas para a condução da guerra de rapina![4]

Para Lênin, a conclusão a tirar disso era clara, “Perante esta situação, perante esta difusão inaudita das deturpações do marxismo, a nossa tarefa consiste, antes de mais, em restabelecer a verdadeira doutrina de Marx sobre o Estado.”[5] Sem esse esforço de assimilação da doutrina marxista sobre o Estado, por Lênin e os bolcheviques, teria sido impensável a aplicação vitoriosa do marxismo a situação da Rússia e o triunfo da Grande Revolução Socialista de Outubro.

            Nesse trabalho – O Estado e a Revolução – que consiste em uma síntese magistral de toda a obra, não só de Marx, mas também de Engels, sobre o Estado, Lênin persegue o fio condutor, que leva ao desenvolvimento, plenamente acabado, da doutrina marxista sobre as tarefas do proletariado na revolução social. Entre muitos pontos de fundamental importância, Lênin ressalta o método materialista dialético utilizado por Marx, para solucionar a questão que se colocava perante a revolução.

Os utopista dedicaram-se a “descobrir” as formas políticas sob as quais deveria ter lugar a reorganização socialista da sociedade. Os anarquistas esquivaram-se totalmente da questão das formas políticas. Os oportunistas da socialdemocracia atual aceitaram as formas políticas burguesas do Estado democrático parlamentar como um limite intransponível e quebraram a cabeça a prosternar-se diante deste “modelo” (...)

   Marx deduziu de toda história do socialismo e da luta política que o Estado deverá desaparecer e que a forma transitória do seu desaparecimento (passagem do Estado ao não-Estado) será “o proletariado organizado como classe dominante”. Mas Marx não se propunha descobrir as formas políticas deste futuro. Limitou-se a observação precisa da história (...)

   E quando o movimento revolucionário de massa do proletariado eclodiu, Marx, apesar do fracasso desse movimento, apesar da sua curta duração (...) entregou-se ao estudo das formas que ele tinha descoberto[6].

Observemos agora, de perto, quais foram essas formas finalmente descobertas, pelo movimento revolucionário, para o período de transição do Estado ao não-Estado. Mas antes, é necessário analisar uma questão central.

Capítulo II – O Estado como instrumento de dominação

Notem na passagem citada, Lênin, limita-se a descrever o método através do qual Marx chega à forma política do período de transição. Porém o seu conteúdo já estava dado, “o proletariado organizado como classe dominante”.

            Já na véspera da grande revolução de 1848, Marx e Engels descrevem o conteúdo imediato da presente revolução proletário latente na sociedade capitalista.

(...) a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante, a conquista da democracia.

   O proletariado utilizará a sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo o capital a burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas.[7]

Com se vê, para os dois comunistas, a tarefa imediata do proletariado era a conquista do Poder de “Estado, isto é, o proletariado organizado em classe dominante”. Aqui se percebe uma ideia fundamental, anos mais tarde desenvolvida por Engels, em sua obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, o Estado é o instrumento da classe dominante, o instrumento da dominação de classe. Surgido das contradições entre as classes.

O Estado não é, pois, de modo algum, um poder que se impõe a sociedade de fora para dentro; tampouco é “a realidade da ideia moral”, nem “a imagem e a realidade da razão”, como afirma Hegel. É antes um produto da sociedade, quando essa chega a um determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa sociedade se enredou num irremediável contradição com ela própria e esta dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado aparentemente a cima da sociedade, chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da “ordem”. Este poder, nascido da sociedade, mas que se coloca a cima dela se distanciando cada vez mais, é o Estado.[8]

Depois de definir as características que diferenciam o Estado da antiga organização gentílica da sociedade (1 – a divisão territorial frente às velhas organizações gentílicas de clãs e de tribos 2 – a existência do Poder Público frente à antiga organização da população que a si mesmo constituía-se em força armada), Engels prossegue, demonstrando que também na moderna república democrática parlamentar essa concepção do Estado é valida. Para ele essa forma de Estado era também produto das contradições de classe da sociedade capitalista e através deste a burguesia exerce seu poder sobre a classe operária.

Nela, a riqueza exerce seu poder de modo indireto, embora mais seguro. De um lado, sob a forma da corrupção direta dos funcionários do Estado, e na América vamos encontrar o exemplo clássico; de outro lado, sob a forma de aliança entre o governo e a Bolsa. [9]

E ainda no Manifesto do Partido Comunista, “O governo moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa.[10]” Lênin, enriqueceu esse conceito com o exemplo da república democrática parlamentar da Rússia.

Atualmente, o imperialismo e a dominação dos bancos <<desenvolveram>> até uma arte extraordinária ambos estes métodos de defender e pôr em prática a omnipotência da riqueza em quaisquer repúblicas democráticas. Se, por exemplo, logo nos primeiros meses da república democrática da Rússia, poder-se-ia dizer da lua-de-mel do casamento dos <<socialistas>> - dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques – com a burguesia no governo de coalização, o Sr. Paltchínski sabotou todas as medidas para domar os capitalistas e o seu banditismo, a sua pilhagem do tesouro por meio dos fornecimentos de guerra, se depois de ter saído do ministério o senhor Paltchínski (substituído, naturalmente, por um outro Paltchínisk, absolutamente igual) foi <<presenteado>> pela burguesia com um lugarzinho com um vencimento de 120 000 rublos por ano, então o que é isso? Corrupção direta ou indireta? Uma aliança do governo com consórcios capitalistas ou <<apenas>> relações amistosas? Que papel desempenharam os Tchernov e os Tseretéli, os Avxéntiev e os Skóbelev? – São aliados diretos dos milionários dilapidadores do dinheiro público ou apenas indiretos?

   A omnipotência da riqueza está mais segura numa república democrática porque não depende de determinados defeitos do mecanismo político, do mau invólucro do capitalismo. A república democrática é o melhor invólucro possível para o capitalismo, e por isso o capital, depois de se ter apoderado (através de Paltchínski, dos Tchernov, dos Tseretéli e Cª) deste Invólucro, que é o melhor alicerce do seu poder tão solidamente, tão seguramente, que nenhuma substituição, nem de pessoas, nem de instituições, nem de partidos na república democrática burguesa abala esse poder[11].

Lênin conclui de tudo isso, e da doutrina marxista sobre o Estado;

O Estado é a organização da força, a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer. Qual é então a classe que o proletariado deve reprimir? Naturalmente a classe dos exploradores, isto é, a burguesia. Os trabalhadores precisam do Estado somente para reprimir a resistência dos exploradores, e dirigir essa repressão, realizá-la na prática, só o proletariado está em condição de o fazer, como única classe revolucionária até o fim, única classe capaz de unir todos os trabalhadores e explorados na luta contra a burguesia, no seu completo afastamento.[12]

E prossegue;

A doutrina da luta de classes, aplicada por Marx a questão do Estado e da revolução socialista, conduz necessariamente ao reconhecimento do domínio político do proletariado, da sua ditadura, isto é, de um poder não partilhado com ninguém e que se aponha diretamente na força das armas[13].

Encontramos aqui o conteúdo da expressão “ditadura do proletariado”. A dominação política do proletariado, sua organização enquanto Estado (ou seja, através da violência) para reprimir os exploradores e expropriá-los. Retornemos então à busca de Marx pelas formas políticas deste Estado de transição, entre o Estado e o não-Estado.

            Vimos que as vésperas da revolução de 1848, Marx e Engels, já tinham em mente que a revolução social na sociedade capitalista levaria ao domínio político da classe operária, “a conquista da democracia”. E enunciavam as tarefas deste novo poder. A centralização de todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado e o seu desenvolvimento prodigioso. Porém, nada nos habilita a dizer que Marx ou Engels pensassem numa forma de Estado, que fosse diferente da república democrática parlamentar. Por tanto, o conteúdo da doutrina da ditadura do proletariado já estava elaborado, a dominação política do proletariado, no entanto, não encontrava ainda uma forma adequada.

            Só em 1852, no seu balanço da experiência da revolução, Marx faz avançar, um pouco mais, nessa questão a doutrina do proletariado. Demonstrando que, todas as revoluções esforçaram-se em aperfeiçoar o aparelho de Estado ao invés de destruí-lo[14]. Do que Lênin, após demonstrar em que consiste esse aperfeiçoamento da máquina de Estado, a qual se refere Marx – desenvolvimento do parlamentarismo tanto nos países republicanos, quanto monárquicos, luta entre partidos burgueses e pequeno-burgueses pela partilha dos lugarzinhos burocráticos sem tocar na ordem burguesa e o aperfeiçoamento e consolidação do poder executivo, o aparelho burocrático e militar – concluí ser necessário à demolição da máquina do Estado.

O desenvolvimento, o aperfeiçoamento, a consolidação deste aparelho burocrático e militar prosseguem através de todas as revoluções burguesas que a Europa viu muitas vezes desde o tempo da queda do feudalismo. Em particular, precisamente a pequena burguesia é atraída para o lado da grande e submetida a ela, em grau significativo, por meio deste aparelho, que dá as massas superiores do campesinato, do pequeno artesão, dos comerciantes, etc., lugarzinhos relativamente cômodos, tranquilos e honrosos, que coloca os seus possuidores acima do povo[15].

Ainda mais na época do imperialismo;

E, em particular, o imperialismo, época do capital bancário, época dos gigantescos monopólios capitalistas, época da transformação do capitalismo monopolista em capitalismo monopolista de Estado, mostra o reforço extraordinário da <<maquina de Estado>>, o crescimento inaudito do seu aparelho burocrático e militar em ligação com o reforço da repressão contra o proletariado, tanto nos países monárquicos como nos países republicanos mais livres.

   A história mundial conduz agora inevitavelmente, numa escala incomparavelmente mais ampla do que em 1852, à <<concentração de todas as forças>> da revolução proletária para a <<destruição>> da máquina do Estado.

   Pelo quê a substituirá o proletariado?[16]

Essa última questão ficará sem resposta por quase vinte anos. A derrota da revolução na Europa, a instauração das ditaduras militares de Napoleão III na França e de Bismarck na Alemanha, o adormecimento do movimento democrático e revolucionário e o desterro de Marx força-o a concentra-se em outros aspectos da teoria revolucionária. Seus estudos na sala do Museu Britânico, em Londres, lhe consumiram extraordinárias forças e deram a maior obra da teoria marxista. Por outro lado, nenhuma outra tendência do socialismo pode dar resposta a essa questão, seja por que não o queriam fazê-lo, porque não dominaram o método materialista, ou porque as condições objetivas não haviam amadurecido a ponto de proporcionar respostas precisas a esta questão.

Capítulo III – O Estado Comuna, forma de dominação política do proletariado.

É a Comuna de Paris (1870-1871) que dará essa resposta. Em plena guerra franco-prussiana os operários parisienses assaltam aos céus. De armas em punho derrubaram as instituições estatais locais, a administração municipal, o Exército permanente e a policia, instituindo seu próprio governo, em forma de Comuna. Com remuneração operária para todos os funcionários e com a segurança pública sendo defendida pelo próprio povo em armas.

            A Comuna só viveu três meses. Foi afogada em sangue pela contrarrevolução de Versalhes na chamada, semana sangrenta de Maio. Apesar disto, Marx, então principal teórico da I Internacional, deu-lhe extraordinária atenção. Em sua obra A Guerra Civil em França definiu-a como, o governo operário, a forma finalmente descoberta na qual se pode finalmente realizar a libertação econômica do trabalho, a forma determinada da república que devia eliminar não só a forma monárquica da dominação de classe, mas também a própria dominação de classe.

            Prossigamos com Lênin, ainda em sua obra, O Estado e a Revolução. Também nela, Lênin expõe as analises de Marx sobre a experiência da Comuna e as explicações adicionais de Engels. Vejamos: a qual correção do programa do manifesto a Comuna levou Marx a fazer? Marx julgou que, a Comuna havia provado que a classe operária não podia se limitar a tomar conta da máquina do Estado que montara a burguesia e pô-la em funcionamento. Era necessário à classe operária demolir a máquina do Estado. Esse era o conceito e o próprio fundamento de uma revolução verdadeiramente popular no continente europeu. Lênin afirmava sobre esse ponto;

Na Europa de 1871, o proletariado não constituía a maioria do povo em nenhum país do continente. A revolução “popular” que arrasta verdadeiramente a maioria para o movimento só podia ser popular englobando tanto o proletariado quanto o campesinato. Ambas as classes constituíam então o “povo”. Ambas as classes estão unidas porque a “máquina do Estado burocrático e militar” as oprime, as esmaga, as explora. Quebrar está máquina, demoli-la – tal é verdadeiramente o interesse do “povo”, da sua maioria, dos operários e da maioria dos camponeses, tal é a condição da livre aliança dos camponeses pobres e dos proletários, e sem tal aliança a democracia é instável e a transformação socialista é impossível[17].

Quanto a restrição feita por Marx ao continente europeu, sabe-se que ele via na América o modelo de república democrática plenamente desenvolvida e de liberdade, e atribuía a Inglaterra uma situação privilegiada com relação ao continente europeu, onde se poderia dar a passagem pacífica para o socialismo.  Acreditava que, o desenvolvimento do capitalismo a colocava em condição tal que se podia dispensar a revolução violenta para a transição socialista neste país. Engels dedica algumas palavras a esta tese de Marx no seu prefácio a edição de 1885 do primeiro livro d’O Capital, onde ressalta o seu caráter condicional[18]. Lênin, analisando o desenvolvimento do capitalismo, do imperialismo e do colonialismo, no período posterior a Marx e sobre tudo, a grande guerra imperialista de 1914-1918, demonstra que, essa restrição já havia perdido toda a razão de ser. Mais ainda podemos dizer, depois da segunda guerra mundial, quando todas as potências imperialistas se viram forçadas a inflar ainda mais seus aparelhos burocráticos militares na sua luta sangrenta contra os movimentos de libertação nacional e o socialismo. Particularmente os Estados Unidos conheceu um processo de fascistização de modelo meccarthista.

Agora, em 1917, na época da primeira grande guerra imperialista, esta limitação de Marx já não é válida. Tanto a Inglaterra como a América, os maiores e os últimos representantes em todo o mundo da “liberdade” anglo-saxônica no sentido da ausência de casta militar e de burocratismo, escorregam completamente para o pântano lamacento e sangrento, comum a toda a Europa, das instituições burocrático-militares que tudo subjugam, que tudo esmagam.[19]

Bem, passamos da definição do manifesto, da revolução operária, como passagem da classe operária à classe dominante pela via do Estado, à definição de 1871, da revolução popular, como destruição da máquina do Estado burguês pelo povo. Mas, a analise de Marx da experiência da Comuna nos permite avançar em algum sentido na questão de saber pelo que deve o proletariado substituir essa antiga máquina de Estado quebrada, que formas assumirão o novo Estado de transição para o Não-Estado? Sabemos que Marx definira a Comuna como a forma finalmente descoberta na qual se podia realizar a libertação econômica do trabalho. Mas como a Comuna começara a cumprir essa tarefa?

A Comuna de Paris começara por substituir o exercito permanente pelo próprio povo em armas, reduzir o salário de todos os funcionários do Estado ao nível do salário operário e instituir, não só a elegibilidade, mas também, a amovibilidade de todos esses funcionários. Essas medidas significavam, não só a democratização radical do Estado, como a própria eliminação do velho aparelho de Estado burguês, sua substituição por um novo, amputado das instituições burocráticas, na base de um democratismo radical e aparentemente “primitivo”.

O que diferenciava a Comuna da república burguesa, o que o afastava do parlamentarismo não era a ausência de representação. Era sim, o fato, da Comuna, não ser uma instituição parlamentar, mas um corpo de trabalho, ao mesmo tempo executivo e legislativo, formado por operários, capatazes e contabilistas eleitos pelo proletariado e pagos com um salário operário.

Observando essa lição importante da Comuna, analisada por Marx, Lênin afirma que, os oportunistas contemporâneos esquecem-se deste ensinamento e acusam todo ataque ao parlamentarismo de anarquista. O meio para sair do parlamentarismo não é a supressão das instituições representativas nem dá elegibilidade, mas a sua transformação de lugares de charlatanice em instituições de trabalho. Não se trata de acabar de uma só vez com todo o funcionalismo, mas de quebrar de uma só vez a velha máquina burocrática e começar imediatamente a construir uma nova, que permita gradualmente acabar com todo funcionalismo. Lança ainda esse ataque frontal contra os oportunistas, que pretendem manter-se dentro do campo do marxismo e ainda assim assumir a defesa do parlamentarismo, A essência do parlamentarismo consiste em...

Decidir de uma vez em cada certo número de anos que membro da classe dominante reprimirá, esmagará o povo no parlamento, eis onde está a verdadeira essência do parlamentarismo burguês, não só nas monarquias parlamentares mas também nas repúblicas mais democráticas.[20]

Outra importante lição tirada por Marx da experiência da Comuna relaciona-se com a organização da unidade nacional, do Estado Nacional. É sabido, que a Comuna não conseguira se espalhar por todo território francês. E nisto consiste um dos fundamentos de sua derrota. Marx esforçou-se em assimilar da melhor maneira possível essa questão, e lançou os fundamentos da organização do Estado Comuna, neste ponto. 1) A Comuna deve ser a forma política, mesmo da aldeia mais pequena. 2) Eleição pela Comuna da “Delegação Nacional”. 3) Entrega das funções do governo central a funcionários comunais. 4) Organização da unidade da nação através do amputação dos velhos aparelhos burocráticos do Estado.

Após expor a analise de Marx sobre a experiência da Comuna e suas lições para o proletariado, Lênin, passa as contribuições de Engels sobre o tema. Entre as muitas contribuições de Engels está a questão de saber, como o Estado Proletário resolveria o “problema da habitação”. Ele afirmava que hoje já existem habitações suficientes para atender as necessidades de todos. Portanto, o Estado proletário limitar-se-ia a expropriar os proprietários atuais e alojar os operários sem habitação.

Em outra ocasião, em 1873, polemizando com os antiautoritários, explica que mecanismos complexos baseados no emprego de máquinas modernas e cooperação de muitas pessoas pressupõe a autoridade. Para ele, os antiautoritários acreditavam mudar as coisas mudando o nome. Todos os socialistas estão de acordo que ao eliminar as relações sociais de onde surge o Estado, a revolução socialista, eliminará o Estado. Analisando essa polêmica com os anarquistas (ou, antiautoritários), Lênin avalia; Engels opõe-se a tese anarquista da abolição do Estado, não porque seja contrario a abolição do Estado, mas porque essa tese nos anarquistas é confusa e não revolucionária. Em sua polêmica, Engels coloca de imediato a questão das tarefas da revolução proletária frente ao Estado, ao que os oportunistas se esquivam.

Em sua carta a Bebel, Engels demonstra, que a formula Estado popular livre presente no programa do partido socialista alemão é inexata, que o proletariado utiliza-se do Estado como meio de reprimir os opositores durante a Revolução e, portanto, não pode fazê-lo em nome da liberdade e quando já é possível falar de liberdade o Estado já não é mais necessário.

Criticando o projeto de programa de Erfurt, do Partido Socialdemocrata Alemão Engels volta a se debruçar sobre a questão do Estado. Adverte aos socialistas sobre a impossibilidade de pretender qualquer transformação social mais serie sem uma transformação das condições jurídicas da Alemanha. Condena como oportunista a posição do partido, que assumia posturas conciliadoras frente ao absolutismo temendo o retorno das leis antissocialistas e demonstra que a república democrática é a etapa de transição para a ditadura do proletariado.

Por fim, sintetiza o conteúdo do marxismo sobre o Estado no seu prefácio de 1891 à Guerra Civil de Marx, explicando que, o segredo de todas as revoluções democráticas é que depois delas, os operários ficam armados e por isso segue-se sempre uma luta onde, ou se conquista a vitória pelo proletariado armado, ou, a burguesia consegue desarmá-los. Demonstra que a lei de todo o Estado é a passagem dos órgãos do Estado de servidores da sociedade à seus senhores, contra o quê a Comuna começou a aplicar dois métodos infalíveis, elegibilidade e amovibilidade de todos os funcionários, sua remuneração com salários iguais aos dos operários. Termina com uma nova advertência aos socialistas alemães, sobre a passagem da monarquia a república democrática, que de modo algum eliminaria seu caráter opressor.

Podemos agora sintetiza o que foi dito nesse artigo. Optamos sempre, por seguir com Marx, Engels e Lênin, pela via da reconstrução do conceito de ditadura do proletariado. Neste capitulo fizemos a reconstrução do caminho que leva até seu pleno desenvolvimento como está exposto no estudo de Lênin, O Estado e a Revolução. E concluímos que sendo o Estado o produto das contradições antagônicas entre as classes, corporificado como órgãos especial de homens armados e de funcionários permanentes para manter essas contradições dentro dos limites da “ordem”, ele só pode terminar por transforma-se em soberano da sociedade, legitimando a ordem da classe dominante, a quem se associa por mil fios. Assim também na sociedade capitalista e na república democrática, que em nada se diferencia das demais formas de Estado, sendo igualmente um instrumento de opressão e dominação de classes. Sendo assim a revolução popular sobre o capitalismo teria como condição, para ser uma verdadeira revolução popular, de destruir a velha máquina de Estado burocrática e militar e a substituir por outra, em tudo diferente, inclusive por seu conteúdo, que seria o proletariado organizado em classe dominante, ou, o Estado Comuna, ou, simplesmente, a ditadura revolucionária do proletariado, cuja tarefa consiste em realizar a emancipação econômica do trabalho. Vimos ainda às características distintivas deste novo Estado de ditadura do proletariado. A substituição do exército burguês pelo exército popular. A elegibilidade e amovibilidade de todos os funcionários, que deverão ser remunerados com salários iguais aos dos operários. A supressão do parlamentarismo no sentido de transformação do Parlamento de lugar de charlatanice em um corpo de trabalho executivo e legislativo. A organização da unidade da nação, através da organização de todas as regiões como Comuna, da autonomia regional e da unidade nacional (ou centralização) pela eleição da Delegação Nacional entre os funcionários da Comuna.



[1] Estudante de História na Universidade Católica do Salvador
[2] LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução in Obras Escolhidas de V. I. Lenine em três Tomos, volume 2, Editora Alfa-Omega, 1980 (pp.219-305 citação na página 303).
[3] Earl Browder, Secretário-Geral do Partido Comunista dos Estados Unidos da América do Norte de 1933 a 1945.
[4] Obra Citada, pp. 225
[5] Obra Citada, pp. 225
[6] Obra Citada, pp. 259-260
[7] MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista in Karl Marx e Friedrich Engels Obras Escolhidas em três tomos, Volume 1, Editora Alfa-Omega, São Paulo, 1979, pp. 07-47 (citação na página 37).
[8] ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, Propriedade Privada e do Estado; trabalho relacionado com as investigações de L. H. Morgan, 11ª Edição, tradução de Leonardo Konder, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1987, pp. 191.
[9] Obra Citada, 194-195.
[10] MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista in Karl Marx e Friedrich Engels Obras Escolhidas em três Tomos, volume 1, Editora Alfa-Omega, 1979, pp. 07-47 (citação na página 23).
[11] LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução in Obras Escolhidas em três Tomos, volume 2, Editora Alfa-Omega, 1980, pp. 219-305 citação página 230-231.
[12] Obra Citada, pp. 238.
[13] Obra Citada, pp. 239.
[14] MARX, Karl.  O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte in Karl Marx e Friedrich Engels Obras Escolhidas em três Tomos, volume 1, Editora Alfa-Omega, São Paulo, 1979, pp. 199-285 (citação na página 275-276).
[15] LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução in Obras Escolhidas de V. I. LENINE em três Tomos, volume 2, Editora Alfa-Omega, São Paulo, 1980, pp. 219-305 (citação na página 241-242).
[16] Obra Citada, pp. 243-244.
[17] Obra Citada, pp. 248.
[18]ENGELS, Friedrich. Prefácio à edição inglesa in Marx, Karl. O Capital; crítica da economia política, livro primeiro, processo de produção do capital, volume 1, 23ª edição, tradução de Reginaldo Sant’Anna, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2006, pp. 39-43, principalmente páginas 42-43. Na página 43, Engels afirma; “Por certo, (Marx) nunca esqueceu de acrescentar ser pouco provável que as classes dominantes inglesas se submetessem a essa revolução pacífica e legal sem proslavery rebellion, a rebelião pró-escravatura.
[19] LÊNIN, Vladimir. O Estado e a Revolução in Obras Escolhidas de V. I. Lenine em três tomos, volume 2, Editora Alfa-Omega, São Paulo,  1979, pp. 219-305 (citação na página 248).
[20] Obra Citada, pp. 253.